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“Dou-te os meus olhos” é um filme do realizador Icír Bollaín. Retratando a problemática da violência doméstica e o que de mais “sensível e complexo” há na mesma, certo é que a história é conduzida pela fuga de Pilar da sua própria casa para a casa da sua irmã, transportando consigo Juan, o filho do casal protagonista. Quando saí de casa, Pilar recomeça a sua vida, essencialmente do ponto de vista profissional, o que atormenta de alguma forma António, seu marido, pois o mesmo declara, entre vários aspectos –  “Sempre tiveste jeito para coisas inúteis”  – ao percepcionar a competência e o bom ambiente laboral em que a vítima estava inserida.

A vítima dedica-se ao trabalho de museu, descrevendo histórica e artisticamente a simbologia de diversos quadros, apelando a grande maioria deles ao simbolismo mitológico e erótico. António de tudo faz para controlar a vítima, ofertando-lhe inclusivé um telefone móvel para puder contornar todos os passos dados pela protagonista, depois de a convencer a voltar para a casa do casal. Pilar cede, de uma forma amarga, mesmo que para ela a componente afectiva não se apagara de forma nenhuma. Ao acreditar no agressor, a vítima dá início a um novo ciclo da violência doméstica: agravamento das discussões e do relacionamento entre o casal, seguindo-se uma fase de autêntica explosão, num terceiro momento a vítima reconcilia-se do agressor (fase da lua-de-mel) e por fim dá-se o reinício da escalada.

Ao longo do desenrolar da história, é notória a necessidade que a vítima tem de obter o consentimento ou a (re)aprovação do agressor para o quer que seja. No limite, ela age por vontade própria. Esta última ideia pode ser exemplificada pelo trecho elucidativo da saída da vítima da casa do casal, no final do filme, sob a protecção da rede de amigas. De qualquer maneira, a vítima vive em constante sobressalto quando saí à rua, com receio que o agressor dificulte os seus passos, a sua caminhada, a sua trajectória, o seu percurso de vida pessoal e profissional. Perseguição essa efectuada por meio de insultos e ordens – “Deixa-te de merdas, anda tomar um café para conversarmos” (trata-se do episódio em que António pressiona com arrogância Pilar a voltar para a casa do casal). O medo de ela estabelecer contacto com o seu marido agrava-se, momento após momento. Mesmo quando está com o filho, num primeiro momento, o agressor usa-o para obter informações a respeito da sua esposa, afirmando “Ela que se deixe de merdas, que venha para casa”. A criança é socializada, desta forma, com os valores do autoritarismo e do “emotivamente mais forte” que sempre caracterizaram o “macho latino”.

Para consolidar a sua estratégia, o agressor oferece, continuadamente, presentes à vítima e ao seu filho, para puder comprar algo que não consegue dar: tranquilidade. No entanto, este estratagema deixa de fazer sentido quando António rasga algumas páginas de um dos livros mais admirados pela vítima, estabelecendo a comparação entre a mulher promíscua que ela é e o simbolismo ou a representação das mulheres nuas nos quadros, tirando-lhe a roupa, despindo-a de um vestido comprado para uma das entrevistas de trabalho em Madrid com vista à promoção na sua carreira profissional e colocando-a nua na varanda da casa, dizendo-lhe que nesse momento ela já podia ser aquilo que desejava, ou seja, mostrar aos outros o seu papel de mulher promíscua. Mais um momento de humilhação, de autêntica submissão.

 Entre dedos de conversa e de sedução, o agressor consegue manipular e assombrar a vítima por todo o lado. Ela ora teme, ora cede. Chega mesmo a manipular a criança que diz ser seu filho, perguntando-lhe “O que é um homem que mente?”, o filho responde “É uma merda”. Mais uma vez, o filho é educado aos valores da manipulação, da malvadez, da dominância. Juan vive com receio, mas sente-se apoiado pela mãe e tia.

Quando decide contar a verdade à sua mãe, Pilar vê-se confrontada com a desconfiança da sua mãe, dizendo-lhe a última “Pilar, uma mulher nunca está bem sozinha.”

Ao longo da terapia feita aos agressores, ouvem-se afirmações de natureza autoritária, entre as mencionadas: “Tenho-lhe dado uns pontapés, mas isso não é nada… Todos os casais têm…”, mais ainda: “Depois de umas belas estaladas, elas afinam logo.” Assim, o agressor manipula a vítima, recorrendo à terapia psicológica. A última não dá frutos, dado que o agressor vê-se defrontado com uma personalidade violenta, agressiva, astuta, controladora.

Ana Ferreira

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