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“Virtually every ethnography and report states that FGM is defended and transmitted by the women. The mothers who have this done to their daughters love their children and want the best for them.”
Guerry Mackie, Ending Footbinding and Infibulation, 1996
Discorrer sobre um tema tão complexo como a Mutilação Genital Feminina (MGF) obriga-nos a analisar os dois lados da questão: os que preconizam a prevalência da prática e os que a repudiam em pleno.
Em inúmeras sociedades subdesenvolvidas, a MGF é uma prática vigente, uma tradição milenar ou legado cultural ao qual devem dar continuidade para controlar a sexualidade feminina e, por conseguinte, assegurar a respeitabilidade social.
Numa posição exactamente contrária, inúmeras são as vozes que se insurgem contra a prevalência da MGF, considerando-a um dos actos mais violentos perpetrados contra os direitos sexuais e reprodutivos femininos. As consequências físicas e psicológicas são irreversíveis e nenhum motivo (seja de ordem cultural, religiosa, higiénica ou sociológica) justifica a sua prática. Danos emocionais irreparáveis, infecções, tétano, complicações no parto, infertilidade ou até mesmo a morte integram um vasto conjunto de problemas que são obliterados pelos que sustentam a sua prevalência.Neste confronto de ideias e perspectivas dissidentes, duas ilações parecem-me fundamentais: não devemos culpabilizar os indivíduos que a praticam, mas não podemos aceitar a sua prática.
Quem a promove desconhece os seus malefícios, o modo fulminante como afecta a vida das crianças. Perpetuam-na com o intuito de proteger e imunizar as suas filhas de males que crêem existir. Contudo, não podemos considerá-la uma cirurgia equiparável a qualquer outra pelo facto de contemplar benévolas intenções. Já se submeteram à MGF cerca de 132 milhões de crianças e o panorama actual não faz vislumbrar um retrocesso.

O problema permanece e a questão impõe-se: como dissipar a MGF?
Qualquer alternativa parece ser mais aceitável do que extirpar os órgãos genitais, mormente em virtude de causas infundadas (a meu ver, evidentemente).
A medicalização e os rituais alternativos são apontados como factores cruciais no combate contra a predominância da MGF.
Medicalizar a MGF significa permitir a sua realização em hospitais, nos quais as condições sanitárias são muito melhores e o recurso a técnicas lenificantes é facilitado. Todavia, pondera-se a possibilidade da operação ser mais intensa devido ao facto da rapariga estar menos exposta à dor.
Os rituais alternativos, implementados em países como o Gana e o Quénia, substituem práticas mais pungentes ou mesmo a mutilação.

Outros programas com sucesso procuraram remunerar as parteiras, principais praticantes, para que prescindam dos materiais artesanais que utilizam e se transformem em verdadeiras profissionais. A divulgação das consequências da MGF, dos cuidados necessários durante a gravidez e o incentivo do uso de protecção nas relações sexuais são, igualmente, acções que estão a ser desenvolvidas junto das comunidades.
A erradicação é o objectivo máximo de todos os esforços canalizados. Dissipá-la a partir de instrumentos legislativos é condição necessária, mas não suficiente. Em inúmeros países que promulgaram leis proibicionistas, a MGF continua assinalável, pois quem a pratica não a denuncia.
Os propósitos mantêm-se, o trabalho no terreno desenvolve-se…
Resta acreditar que factores como a Educação, Estabilidade social e um Sistema de Saúde eficiente circunscrevam o problema.
Anabela Santos
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4 Comments

  1. “Não devemos ter medo dos confrontos…até os planetas se chocam e do caos surgem as estrelas!” Por isso,a Revolução mobiliza a justeza social. Isto é, mobiliza uma Sociedade para o sentido da moral, da boa consciência! Parabéns Anabela, está um texto muito bem trabalhado:)

  2. Anabela,

    Eu lamento realmente ter tido que ler o seu discurso num site “feminista”.
    Discurso é totalmente inadmissível numa perspectiva feminista.

    Onde está a compaixão pelas centenas milhares de crianças, jovens e mulheres que ficam mutiladas, por causa de uma violência real e simbólica de uma ordem PATRIARCAL violenta e obscurantista???
    Acho o seu discurso absurdamente condescendente com o pior do RELATIVISMO CULTURAL…

    Normalmente associa-se MGF a islamismo, porém não há nada no Corão que autorize ou prescreva tal prática!!!

    Manuel Baptista

  3. Caro Manuel Batista:

    A Mutilação Genital Feminina é, absolutamente, condenável. A minha opinião é clara:”não devemos culpabilizar os indivíduos que a praticam, mas não podemos aceitar a sua prática”.
    Quem a pratica não o faz com o intuito de ferir a criança, mas visando imunizá-la e integrá-la na sociedade. É um problema CULTURAL.
    Se, como refere, não me preocupasse com “as centenas milhares de crianças, jovens e mulheres que ficam mutiladas, por causa de uma violência real e simbólica de uma ordem PATRIARCAL violenta e obscurantista”; não escreveria um texto sobre este tema, não acha?
    Para evitar que deturpe, mais uma vez, as minhas palavras, enfatizo: CONDENO O ACTO, COMPREENDO AS INTENÇÕES DE QUEM O PERPETRA.

  4. Acrescentando…

    A minha posição face à Mutilação Genital Feminina já adquiriu contornos extremamente radicais. Contudo, após a leitura de “Aurora no Deserto”, de Waris Dirie, modelo e vítima desta prática, a minha opinião em relação aos seus praticantes alterou-se.
    Embora continue a repudiar, veementemente, a MGF, não olho para as pessoas que a cometem com desdém e repugnância. Elas próprias são vítimas da Cultura na qual estão inseridas; na maioria das vezes, o seu acto não reveste propósitos malevolentes. Todavia, o facto de não atribuir a culpa às famílias que a promovem não significa que aceite a MGF. Pelo contrário, considero um acto hediondo e inconcebível que deve ser erradicado rapidamente.

    Apresento, de seguida, algumas das afirmações que me levaram a reflectir, de um modo mais profundo, sobre a MGF e os seus actores:
    “Quando era criança, cheguei a suplicar à minha mãe que mandasse circuncidar-me, pois ouvia que isso me tornaria limpa e pura.”

    “Ela (a sua mãe) acreditava que isto asseguraria o meu futuro, pois as raparigas com genitais intactos são consideradas imundas e sexualmente promíscuas. Nenhuma mãe consideraria tal rapariga como esposa adequada para o seu filho.”

    “A intenção da minha família não era magoar-me, era algo por que também tinham passado a minha mãe, as irmãs e a mãe dela. Elas sentiam sinceramente que aquilo tinha de ser feito para que eu fosse pura. Acreditavam que aquilo era especificamente determinado pelo Corão.”


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