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Miriam Blasco é uma jovem espanhola que encontrou na prostituição uma forma rápida de ganhar dinheiro. Conheceu o mercado de “serviços sexuais” aos 19 anos, por intermédio de uma senhora (ex-prostituta) que lhe prometeu conseguir bons clientes. Inicialmente, conciliava a sua actividade com os estudos universitários. Actualmente, com 25 anos, partilha o apartamento com um travesti, Lia. Em entrevista ao ‘O Mal da Indiferença’, via mail, Miriam não tem preconceitos, assume-se e não tolera a ausência de direitos laborais das prostitutas no seu país, Espanha.Que factores contribuíram para a sua entrada na prostituição?
Miriam Blasco: Geralmente, em todos os trabalhos ganha-se pouco dinheiro, sobretudo ao acabar os estudos. A ideia que tenho é ganhar rapidamente dinheiro que me faz falta para construir uma casa num lugar que escolhi e montar uma empresa.
A sua família e amigos têm conhecimento da tua actividade?
Os meus amigos de antes não. Posteriormente fiz amigos nesta profissão que sabem o que sou. A minha família não sabe que me dedico a isto.Em Espanha, quanto aufere uma prostituta, mensalmente? É uma quantia suficientemente aliciante para incentivar outras mulheres?
Geralmente, obtenho uma média de quatro mil euros. Há meses em que o melhor que consigo ganhar é seis ou sete mil, mas em outros meses não passo de mil e quinhentos ou dois mil. Tudo depende da situação social. Por exemplo, Setembro é um mês muito mau, começa o colégio das crianças e isso repercute-se nos pais e na sua economia.
Estabelece algum tipo de relação com o cliente para além da profissional?
Procuro não fazê-lo, mas há clientes que, pela sua assiduidade, se poderiam considerar amigos; digamos que cada um sabe em que lugar se encontra. Ele sabe porque me solicita e eu sei que em certas coisas posso pedir-lhe algum favor pontual se necessitar da sua ajuda. Contudo, isto ocorre com poucos clientes fixos. É similar a relação que podes estabelecer tu mesma com o dono do café debaixo da tua casa. Sabes que, num determinado dia, pode fazer-te um favor ou o contrário, mas tu sabes que se tomas um café deves pagá-lo.
Qual é a reacção da sociedade espanhola em relação ao fenómeno da prostituição?
A sociedade espanhola, assim como todas as outras da Europa (Portugal também), é hipócrita neste sentido. Sabem que existem a prostituição, permitem-na ou não se metem com ela, mas não existimos em nenhum sentido. Não pagamos impostos, não temos direito a assistência médica ou social. É injusto. Penso que deveríamos ter as obrigações que os restantes cidadãos e os seus direitos. Por outro lado, quando as autoridades decidem abordar o tema da prostituição é para reprimir, da maneira mais absurda (actualmente em Madrid ou Catalunha), obviando que a prostituição prevalece no mundo desde sempre. A Suécia acredita que, ao penalizar os consumidores de sexo pago com multas, poderá acabar com a prostituição; os seus políticos dizem-no claramente. Na Suécia, prostituem-se raparigas de 15 anos, simplesmente para que alguém lhes pague umas calças de ganga, um jersey ou qualquer outro capricho.A hipocrisia da sociedade verifica-se ainda mais nos meios de comunicação, estes limitam-se a salientar o lado mau nas suas notícias, a sensação de que todas nós estamos dependentes de drogas, do uso de armas ou do proxenetismo. Divulgam dados deliberadamente falsos (sobre isto, há um comentário no meu blogue) sobre diversos aspectos e um conjunto de barbaridades que fazem com que a prostituição seja vista como algo muito próximo do crime. Por último, as feministas que usam a prostituição para promover as suas teses e denominar-nos de mulheres escravizadas, de mulheres objecto e um conjunto de disparates. Eu conheço imensas mulheres dedicadas a isto, nenhuma das que conheci era escravizada, optaram por esta profissão por mil razões, a principal é ganhar dinheiro rápido e em quantidade suficiente. Para muitas de nós, a escravizada é a que trabalha desde manhã à noite, limpando casas por trezentos euros por mês. Não me considero nem ouço ninguém dizer que se sente uma mulher objecto, os homens é que são os objectos para nós. Neste mundo, o que vale é o dinheiro, o resto é disparates e nós se o sacamos dos homens, quem é o objecto? As feministas fomentam mais do que ninguém essa hipocrisia, esse querer ver outro lado e esse âmbito mafioso que rodeia a prostituição.
As prostitutas com as quais contacta entram na prostituição por imposição de outrem ou por escolha própria?
Todas as raparigas que conheço entraram por escolha própria e, entre elas, há factores de todo o tipo. A má situação de muitos países africanos e sul-americanos força-as a procurar uma solução rápida para ganhar dinheiro, com o qual podem iniciar a sua própria empresa ou algo semelhante no seu país. Outras, devido ao seu baixo nível de instrução, só podem optar por empregos mal remunerados. Um número reduzido (é o meu caso), por ganhar um dinheiro mais ou menos rápido que nos permita satisfazer e levar o resto da vida com uma normalidade mais ou menos relativa, sem preocupações de hipotecas ou outras circunstâncias, evidentemente procurando num futuro próximo criar algo que nos proporcione sustento mas sem as preocupações anteriormente mencionadas. Há as que vão por puro vício (poucas também). Não digo que não haja mulheres exploradas, mas são em menor número. Nunca conheci nenhuma e dos casos que a imprensa divulga duvido muitíssimo.
Considera que a regulamentação da prática da prostituição beneficiaria as pessoas que se prostituem?
Evidentemente que nos beneficiaria, porque nos daria a oportunidade de pagar os nossos impostos, ter direito a assistência social. Só, por isso, já nos beneficiaria, para além de permitir a redução de máfias de proxenetas, uso de armas, etc.
O que mais receia que lhe possa acontecer no mundo da prostituição?
Às vezes, tenho medo de alguns homens, da Sida. Normalmente, sinto-me segura, mas sempre há um risco. Creio que ocorre em todas as profissões.
Aconselharia um familiar ou amigo a prostituir-se?
Sim. Isto acontece com frequência, sobretudo com as raparigas estrangeiras. Por vezes, vem uma e traz as suas irmãs, primas, amigas, etc.É importante esclarecer que o recomendaria dependendo da pessoa. Para se dedicar a isto não se pode ter demasiados escrúpulos (de qualquer tipo, morais, étnicos, sanitários, …), nem ser uma pessoa vulnerável, há que ter um certo carácter, etc. Não é adequado a todo o tipo de raparigas.
Entre as prostitutas, há uma perspectiva de trabalho, isto é, pretendem ascender dentro do ramo?
Não, não existe nada assim. Uma prostituta pode cobrar mais ou menos, segundo a sua raça, educação ou saber estar, mas daí não passa. O ideal para todas é retirar-se jovem para outra profissão. Às vezes, não se pode por mil razões. Então, pode-se encontrar antigas prostitutas transformadas em proprietárias de algum clube ou apartamento (a estas, chamamo-las de mami em Espanha) de algum clube ou algo semelhante, mas não mais.
Anabela Santos
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One Comment

  1. La “mami” es la encargada de un club, la que atiende las necesidades de las chicas, no la propietaria, o me expliqué mal o lo tradujiste mal.

    Besos.


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