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Não chegam os dedos das mãos e dos pés as vezes em que tive de andar armada para evitar problemas.”

Maria tem 18 anos, e reside no Porto. Tinha 15 anos quando começou a prostituição. Depois de uma breve paragem quando conheceu o pai da sua filha e engravidou, recomeçou aos 16 anos.
Após ser expulsa de casa, tentou sobreviver ao trabalhar num café mas as circunstâncias levaram-na para o mundo da prostituição. Segundo ela é uma profissão rentável mas com muitos riscos, logo não a aconselharia a ninguém.
Fica então aqui a entrevista com uma”escort girl”, mais um testemunho de prostituição de interior.
Sylvie: A tua família ou os teus amigos sabem desta tua escolha? Se sim qual foi a reacção deles?
Maria: Os amigos próximos sempre souberam, nunca escondi nada. Compreendem perfeitamente, falamos sem problemas sobre o assunto e até me pedem imensos conselhos de foro sexual. Da minha família, só a minha irmã tem conhecimento. Neste caso quem me dá conselhos é ela, também entendendo a minha opção. É uma das minhas melhores amigas e confidentes.
Sylvie: Estudas ou tens outra actividade profissional?
Maria: Estudar só o código da estrada (risos). Tenho outra actividade há cerca de um ano, que conjugo facilmente com esta.
Sylvie: Em que circunstâncias e quais foram os motivos que te levaram a esta escolha?
Maria: Atritos familiares. Quando fiz os 15 anos, acabei por ser expulsa de casa. Trabalhava num café mas acabei por ser despedida. Um dia, entrei num café da minha aldeia e o dono que era ‘tarado’ por miúdas fechou a porta e quis obrigar-me a ter relações com ele. Sabendo que não conseguiria safar-me sem colaborar, e sendo ainda virgem, aceitei, na altura, uma determinada quantia e fiz-lhe sexo oral. A situação acabou por repetir-se diversas vezes. Mais tarde parei, perdi a virgindade com o pai da minha Filha, e, depois de ela nascer, decidi ‘trabalhar’ a sério.
“Chego a ganhar num mês o que muita gente ganha num ano.”
Sylvie: Quais são os benefícios e as dificuldades que enfrentas no teu dia-a-dia?
Maria: Seria impossível não falar da recompensa monetária. É a maior vantagem de todas. Depois há o facto de conhecer gente de todos os tipos, que de outra forma, provavelmente, não seria possível conhecer. Escusado será dizer que as carências sexuais também são, assim, muito menores, e a aventura é uma constante.
As dificuldades são na grande maioria a hipótese de encontrar clientes violentos, ou até assaltantes. Não chegam os dedos das mãos e dos pés as vezes em que tive de andar armada para evitar problemas.Sylvie: Qual é o perfil dos teus clientes, entendo por isso idade, estrato social. O que procuram?
Maria: Sendo Escort Girl (só me desloco a hotéis e motéis) sou maioritariamente procurada por empresários, turistas, actores, futebolistas… Regra geral com idades entre os 30 e os 50 anos. Classe média/alta. Procuram, em geral, a excitação que já não obtêm em casa, o prazer de estar com uma rapariga diferente, e, em alguns casos, escolhem-me por ser tão nova. Há também uma grande parte que me contacta a fim de realizar fetiches e fantasias mais ousadas, que não querem
pedir as companheiras, obtendo assim satisfação sexual sem com isso afectar a estabilidade amorosa.

“Fica-se deslumbrado com enorme poder monetário, e torna-se angustiante viver com o salário mínimo. “

Sylvie: A prostituição é considerada uma actividade rentável. Segundo a tua experiência quanto ganha uma prostituta?
Maria:
Muito rentável. Conheço poucas actividades tão rentáveis. Não posso dizer ao certo quanto recebo, porque todos os meses variam consoante os dias que trabalho e as marcações que tenho. Tiro sempre pelo menos uma semana de folga por mês. Mas posso adiantar que por vezes, chego a ganhar num mês o que muita gente ganha num ano.
Sylvie: Por quanto tempo, pensas manter esta actividade?
Maria: Devido a projectos que pretendo seguir, tenciono deixar a prostituição dentro de meses; provavelmente até ao fim deste ano.Sylvie: Consideras que a prostituição é uma profissão?
Maria: Sem dúvida que sim. Aliás, uma profissão difícil; sem horários, sem conhecimento do dia seguinte, sem contratos válidos, sem nada que nos assegure o futuro propriamente dito. Por estas razões, respeito todas as minhas ‘colegas’ e sou a favor da legalização.

Sylvie: Aprovas a legalização da prostituição. Acreditas que pode trazer benefícios?
Maria: Aprovo a 100%! Traria, sem dúvida, imensos benefícios. Por exemplo; como acompanhantes, devemos fazer analises clínicas detalhadas pelo menos de 2 em 2, ou de 3 em 3 meses. Tendo em conta que não é uma actividade legal, e por isso não reconhecida, não existe comparticipação do estado nesses serviços. Eu chego a gastar uns 1500 euros por ano em analises, mas esse factor ‘assusta’ muitas colegas, que acabam assim por optar não gastar tanto dinheiro nesse tipo de coisas, correndo assim o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis e contaminar clientes sem o saber. Isto é apenas um exemplo, já de si bastante assustador. Se fosse uma profissão legalizada seria tudo mais fácil em muitos aspectos.

Sylvie: Como achas que este tema é abordado em Portugal?
Maria: Penso que, apesar de algumas melhorias, é ainda um assunto tabu. Todos sabem que a prostituição existe, mas todos tentam ignorar, fingir que não. Como se isso fizesse desaparecer o ‘problema’ por artes mágicas. Mau, muito mau.

Sylvie: Para terminar, aconselharias ou já aconselhastes esta opção de vida aoutras pessoas?
Maria: Não. Pelo contrário, já desaconselhei. Recebo diariamente e-mail de mulheres pensando em entrar na actividade, e explico sempre que são mais espinhos que rosas. Para além disso, é viciante. Depois de entrar fica-se deslumbrado com enorme poder monetário, e torna-se angustiante pensar em voltar a viver, por exemplo, de um salário mínimo.

Sylvie Oliveira
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10 Comments

  1. Olá, passei para agradecer a entrevista, que ficou optima 🙂
    Já li o blog de fio a pavio. Bom, muito bom mesmo. Parabéns.
    Bjo

  2. Duas ideias:
    1.ª Só neste país subsídio-dependente é q alguém q afirma ganhar num mês aqlo q a maioria das pessoas ganha num ano pode querer a comparticipação do Estado nas análises. Sem têm elevados lucros (não tributados) o mínimo q podem fazer é suportar os encargos com a actividade q escolheram, como qq outro trabalhador independente.
    2.ª A prostituição é legal, portanto não necessita ser legalizada. O proxenetismo é que é ilegal e penso q não precisa de ser legalizado.

  3. Se fosse legalizada a prsotituição seriam obrigatorios os descontos para quem tivesse essas regalias.

  4. Boa entrevista. Não entendo como é que há pessoas que mesmo aqui só pensam em impostos. Se as “acompanhantes pagassem impostos o PIB levantava logo.
    Boa Maria

  5. Em 1983, a prostituição foi despenalizada no nosso país. O Artigo 170º do Código Penal português criminaliza unicamente acções de Lenocínio. Contudo, o facto de a prostituta/o não ser objecto de punição não significa que a prostituição seja legal em Portugal!Não é legal, é despenalizada, que é muito diferente.

  6. Me parece a mi que para estas mujeres es indiferente que haya o no haya regularización, simplemente porque, si ganan tanto dinero, pueden prepararse el porvenir y costearse todos sus gastos actuales. Por otra parte, hay algo que no entiendo: si gana tanto y de un modo, al parecer, tan fácil, ¿por qué quiere dejarlo y hace proyectos? Si considera que es una profesión y ella sabe ejercerla, no entiendo que se hagan otros planes. Yo llevo ejerciendo mi profesión treinta años y sé que ni quiero cambiarla ni posiblemente me resultara fácil. ¿Por qué quieren hacerlo las prostitutas? Pues porque no es una profesión en absoluto.

  7. Parece-me a mim que aqui a questão do pagamento ou não de impostos é irrelevante. Na minha opinião muito dificilmente a prostituição será considerada uma profissão, e será legalizada. Não é uma questão económica mas uma questão moral.

  8. Lo de los impuestos… las drogas duras también pagarían impuestos. El trabajo infantil, por ejemplo, legalizado o regularizado, daría muy buenos beneficios. De hecho, los niños y niñas esclavizados y explotados en Asia los están dando. Pero no querríamos que eso sucediera, porque es, como dice Silvia, una cuestión de principios, de moral, y no de moral sexual, sino de moral social.

  9. depois de ler o seu testemunho, gostariamos (3 raparigas), se existem rapazes na sua situação???

  10. Gostei bastante da entrevista e de todas as categorias que este blog consegue oferecer aos seus visitantes. Agradecia que todo o material que tivessem sobre este assunto reencaminhassem para o seguinte mail: eri_eguigui@hotmail.com

    Obrigada (:


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