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Ocupando a oitava posição no ranking das línguas mais faladas, a língua portuguesa é prolixa em expressões e adágios de cariz sexista, outrora eficazes arsenais no aniquilamento do papel da mulher na esfera pública. Os nobres “conselhos da sabedoria popular” deambulavam de boca em boca como método de corroborar as práticas discriminatórias mais abusivas, fomentando subsequentes estereótipos detractores da imagem feminina.
Do iletrado ao mais sofisticado, ninguém hesitava em recorrer ao seu uso para levar avante as suas pretensões, nomeadamente o déspota Oliveira Salazar. Na realidade, tais máximas deram expressão à posição adoptada pelo Estado Novo em relação ao papel feminino na sociedade: “manter o asseio, a ordem e a alegria no lar”, ou seja, “tornar a casa atraente e acolhedora, prestar ao marido a deferência e a submissão como chefe de família”.
Vejamos alguns exemplos de provérbios veladores de propósitos nada prezáveis:- “Quanto mais me bates mais gosto de ti”: desvalorizar a violência física, psicológica e sexual exercida secularmente sobre a mulher.
“A mulher e o melão, o calado é melhor”: silenciar a mulher, sonegando a sua opinião.
“Do homem a praça, da mulher a casa”: remeter a mulher para a esfera doméstica, inibindo e restringindo o seu espaço e oportunidades na esfera pública.
“Quem a sua mulher ensina a ler ou é cornudo ou está para ser” ou “da burra im e da mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim”: aprisionar a mulher nas teias da ignorância como forma de apassivá-la.

A lista de provérbios sexistas (quase misóginos!) não termina aqui, pois os exemplos são mais do que muitos.
Embora estejam a cair num progressivo desuso, isso não significa que o sexismo esteja ausente na linguagem. Pelo contrário, segrega ainda nos sistemas linguísticos, quase irremediavelmente. Elege-se o masculino para designar o conjunto dos dois géneros; os plurais constroem-se no masculino, independentemente do número de elementos femininos; algumas profissões não têm simplesmente equivalência no feminino.
Secundando Simone de Beauvoir, o homem parece constituir um ponto de referência; a mulher um ser alienado, o “outro” que se edifica socialmente sempre em relação ao homem. A linguagem é um insigne exemplo disso mesmo: é monopolizada pelo masculino, contribuindo inevitavelmente para o adensamento da violência simbólica – não menos nociva, igualmente atroz.
Porque o sexismo na linguagem não deve ser encarado como um mal menor, esbocemos estratégias para dissipá-lo peremptoriamente!

Anabela Santos
AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt

2 Comments

  1. A linguagem sexista tenta incutir a predominancia de valores tradicionais masculinos, ou seja, enfatiza o aspecto da masculinizaçao no mundo.A linguagem popular e quotidiana influenciam a mente conservadora a relacionar aspectos de força,de racionalidade e de controlo emocional ao sexo masculino. Desta forma, a mulher é vista como um ser alienado, isto, é um ser que é estranho a si prórprio, que sai fora de si, porque nao entende a condiçao da sua identidade. No entanto, o estigma social fala-nos de dois tipos de identidade: a identidade social real e a identidade social virtual. Creio que aqui que se tenta enfatizar um tipo de identidade virtual, porque aqueles que nao se acham regrados, conhecedores da normalidade, pretendem, em algumas vezes, encontrar aspectos de anormalidade em outro ou outrem (neste caso o sexo feminino) para assim se sentirem no topo da escada social. Cobardia social, nao acham?!

  2. Mais uma acha para a fogueira do provérbios que devem arder e transformarem-se em cinzas: “as mulheres são como as batatas, comem-se descascadas ou a murro”


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