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Quadros característicos de uma sociedade fundamente falocrática evidenciam-se ainda no contexto nacional e tornam-se particularmente flagrantes quando atentamos no contributo dos cônjuges na organização da vida familiar/privada.
Tradicionalmente, à mulher atribui-se o papel de housekeeper, bem como o de child care enquanto ao homem inere mormente a função de provider, isto é, a responsabilidade de garantir o sustento da família.
Com o ingresso da mulher no mercado de trabalho, era expectável que esta atribuição de tarefas fenecesse e que se alcançasse uma participação paritária de cada cônjuge. Todavia, os cenários de coabitação actuais revelam uma realidade bem diferente: a gestão e execução das tarefas domésticos são incumbidas (quase em exclusivo!) à mulher; o homem apresenta-se como uma figura isenta de quaisquer funções ou como um mero coadjuvante que se ocupa de complexas tarefas como a de depositar o lixo no devido local.Veja-se: a participação masculina diária nas tarefas domésticas e nos cuidado à família é de apenas 1 hora, enquanto a mulher dedica 4 horas. Contudo, o tempo disponibilizado pelos homens nos cuidados com os filhos aumentou, como revela o estudo “Vida Conjugal e Trabalho” (2004), da socióloga Anália Torres.

Há quem sustente que a vulnerabilidade da mulher no mercado de trabalho no que respeita à sua remuneração, qualificação e permanência constitui a principal razão para esta divisão deficiente. Também, mas Não só! A tendência para considerar o universo privado/doméstico como o espaço exclusivo da mulher, assim como o preconceito que germina à volta de tudo isto assumem-se igualmente como importantes factores.
A distribuição assimétrica tem como corolário primeiro a imposição à mulher da fatigante conciliação da vida profissional (produção) com a doméstica (reprodução). O homem, por sua vez, tem inteira disponibilidade para se dedicar à sua profissão e um seu esporádico contributo é visto como um benevolente gesto da sua pessoa, não sucedendo o mesmo em relação à mulher. E quando se questiona o homem português sobre a sua participação na vida familiar, a resposta não varia: “Sim, ajudo quando posso!”. Na verdade, a utilização do verbo “ajudar” já revela em si uma distribuição assimétrica das responsabilidades concernentes à esfera privada.
Não basta ajudar! É preciso participar paritariamente, sem que o ónus das tarefas recaia exclusivamente num dos cônjuges, geralmente na mulher.

Anabela Santos
AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt
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