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[Continuação da entrevista à vice-presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Maria José Magalhães.]

4. Qual dos feminismos deve predominar hoje: o da Igualdade ou o da Diferença?
M.J.Magalhães: Penso que a dicotomia igualdade versus diferença é uma falsa dicotomia, como, aliás, me responde Maria Teresa Horta a uma entrevista que lhe fiz para a minha tese de mestrado (Magalhães 1998).
Vejamos: quando se fala em igualdade entre “raças” diferentes, será que queremos que as/os negros/as se pintem de branco ou que os/as brancos/as se pintem de negro ou que estes/as façam plástica no nariz para ficarem com narizes achatados? Será que quando falamos em igualdade entre operários e burgueses, queremos que os operários venham a ter uma barriga proeminente ou que os burgueses venham a adquirir um físico mais do tipo “pele e osso”? Será que quando falamos em igualdade ciganos e lusos estamos a querer que todo o luso goste de dormir com o seu cavalo e prefira dançar ao pé de uma fogueira do que sentar-se no sofá? Ou que o cigano deva passar a gostar de viver numa “caixa de fósforos de um apartamento” e passe a não se importar de ver à sua volta algumas crianças maltratadas ou com fome, porque não são “suas”?
Quando falamos de igualdade entre grupos sociais discriminados ou oprimidos e grupos sociais dominantes, estamos a falar de estatuto social, oportunidades na vida, possibilidades de acesso a bens, recursos, etc., e não de características físicas ou de personalidade que variam mais de pessoa para pessoa do que entre os grupos socialmente constituídos. Suponho que todas e todos aceitam que entre os negros há pessoas tristes e outras alegres, umas que gostam de dançar, outras que não, umas que gostam de sair à noite, outras que preferem sair de manhã, umas que são assertivas e outras que são tímidas, etc. O mesmo com os ciganos, os operários, os burgueses e todos os outros OS…
Ora em relação às mulheres, é o mesmo. Há as que são mais tímidas, outras assertivas, até aquelas que são agressivas, as que são caladas, e as que não param de falar, as que são magras e as que são rechonchudas, as que podem ter filhos e as que não podem, as que querem ter filhos e as que não querem, as que gostam de trabalhar (depende do trabalho) e as que gostam mais de ir ao cinema, ou à discoteca ou à praia. As que gostam de usar decote e as que preferem andar sempre de calças. As que gostam de cozinhar e as que fogem a “sete pés” de um fogão. As que gostam de se maquilhar e as que preferem “o natural”. E por aí fora… A questão está em que a sociedade não impeça um homem de se maquilhar porque é homem ou uma mulher de ir à discoteca à noite sozinha porque é mulher.
É compreensível que esta dicotomia tenha surgido no final do séc. XIX e início do séc. XX, dada a enorme naturalização (para o que contribuiu a igreja e a ciência…) da feminilidade como um conjunto rígido de características, funções, apetências, estilo de personalidade, etc. Mas já nessa altura, as mulheres operárias e camponesas, e muito menos as negras e as ciganas, não entravam nessa categoria “mulher”. Lembremos a célebre frase, no séc. XIX de uma negra – Soujourner Truth “Ain’t I a Woman”? – que sintetiza o absurdo que era o estereótipo da feminilidade na época.
Agora, na luta pela igualdade, existem correntes do feminismo que pretendem em maior ou menor grau enfatizar as características ditas “femininas”. Este debate parece-me muito importante — isto é, o mundo igualitário que queremos é como? Pensando em pessoas, homens e mulheres, que se preocupam uns e umas com os outros e as outras (o modelo do cuidar), ou um mundo mais assente no mérito e no trablaho e afirmação individuais?
No entanto, este debate não é fácil de encontrar a solução: porque uma coisa são os nossos desejos de um mundo ideial — de solidariedade, inter-ajuda — outra coisa o mundo feroz da competição e do mercado e as feministas também têm que ter propostas estratégicas para esta dimensão da vida. Caso contrário, as nossas propostas constituirão uma armadilha para as mulheres reais: sugerir que as mulheres devem desenvolver o seu lado cuidador e sensível para criar um mundo melhor, e não se cuidam em termos de carreira e do lazer e de si próprias, significa que elas obterão lugares menos bem remunerados e ficarão ainda mais à mercê do sistema (masculino, por excelência) e sujeitas a maior vulnerabilidade também em termos de saúde (se não cuidarem de si próprias).
Enfim, há bastantes coisas escritas sobre isto, algumas mesmo por mim.
Anabela Santos
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