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A Mística Feminina, de Betty Friedan, publicada em 1963, ocupou os meus dias durante esta época de Estio e, devido ao seu rigor e espírito crítico, inebriou e consolidou o feminismo que há muito me impregna.
Neste livro, Betty Friedan inculpa a mística feminina de cercear a liberdade humana, profissional e criativa das mulheres norte-americanas nas décadas de 50 e 60. Ao contrário das suas antepassadas, as americanas do pós-1945 cederam à subalternização que a mística feminina obstinava impor, circunscrevendo a sua existência ao casamento e maternidade – “vocábulos como ‘emancipação’ e/ou ’carreira’ pareciam estranhos e embaraçosos”.
A ausência de uma carreira, de uma vida “fora de portas” levantou o “Problema sem nome”. Mas, “qual era exactamente esse problema? Quais as palavras usadas pelas mulheres ao tentar descrevê-lo? Às vezes, diziam: “Estou a sentir-me vazia… incompleta”. Betty diagnosticou o problema indizível que assaltava milhares de norte-americanas – tratava-se de uma crise de identidade, de “um desejo indefinido de ‘algo mais’ do que lavar pratos, passar a ferro, castigar e elogiar crianças”.
Com efeito, “o mundo da mulher estava confinado ao seu próprio corpo e beleza, ao fascínio de exercer sobre o homem, à procriação, ao cuidado físico do marido, das crianças e do lar”. O exercício de uma profissão equivalia, para os apologistas da mística, a uma inevitável perda da feminilidade.
A mística feminina não actuou sozinha: contou com a conivência dos media e do sistema de ensino, que detiveram um papel determinante na difusão dos moldes da heroína doméstica, na conservação das mulheres no seu “estado de larva sexual”.
“A Mística Feminina conseguiu enterrar vivas milhões de mulheres”
Mas, afinal, o que é a Mística Feminina? Vejamos:
· A mística feminina determina como propósito único da mulher a concretização da sua feminilidade, que se traduz na “passividade sexual, no domínio do macho, na criação dos filhos e no amor materno”.
· A mística ignora a identidade feminina; não considera outro modo de existência da mulher senão como esposa e mãe – “afirma que é possível responder à pergunta “quem sou eu?”, dizendo – “mulher de Tom, … mãe de Maria”.
· “Para a mulher que vive segunda a mística, não há realizações, status ou identificação, excepto os de ordem sexual: a realização da conquista, o status como objecto sexual desejável, e a identificação com o papel de esposa e mãe sexualmente bem sucedida”.
· A mística representa um retrocesso na História e uma “desvalorização do progresso humano”.
Betty Friedan apresenta, no capítulo final do seu livro, a fórmula-chave que poria fim à feminilidade criada pela mística: o empreendimento de esforços conjuntos de “pais, educadores, ministros, editores de revistas, psicólogos, orientadores, a fim de deter os casamentos prematuros, impedir as jovens de desejarem ser “apenas donas de casa”.
A feminista termina “A Mística Feminina” em tom auspicioso e assertivo: “Mal foi iniciada a busca da mulher pela própria identidade. Mas está próximo o tempo em que as vozes da mística feminina não poderão abafar a voz íntima que a impele ao seu pleno desabrochar”.
Quatro décadas volvidas, a questão levanta-se: a mulher já alcançou a sua IDENTIDADE?

Anabela Santos

AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt

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