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 Mulher, vítima de violência conjugal, casada há 27 anos. Vítima das inconstâncias mais vulneráveis da vida: vítima de uma agressão justificada pelo consumo de álcool e toxicodependência. Tornara-se, também, uma alcoólica depois de muito tempo de agressão. No entanto, não encontra no álcool e no consumo de estupefacientes uma razão desculpável para o acto da agressão: apenas uma agravante!

Assim, a vida já antes do casamento e dos filhos tornou-se um “paraíso perdido” e irrecuperável, onde a sua integridade como sujeito não estava segura, pois a vítima passou por uma época de degradação em muitos aspectos. Esta mulher conheceu a visão sombria do casamento, porque desde sempre esteve aliada a perseguições, injúrias, ameaças e violência, sem término.

Veja-se:

“Foi há 27 anos que eu levei a primeira bofetada, porque num casamento informal de um amigo me prestei a dar uma cerveja a um colega do meu marido que estava do outro lado da mesa. Chorei abafada, estarrecida, incrédula e magoada. Pedi-lhe para não me deixar, porque depois de muitas desculpas, lambemos as feridas e eu jurava que era para “Nunca mais”. (…) A partir daí foi um calvário desde injúrias, murros, caneladas, punhos, puxões de cabelo, patadas, tentativas de estrangulamento… Só queria uma coisa, que ele não me deixasse  e não fizesse barulho para que ninguém soubesse. O que eu queria era calar aquilo que gritava dentro de mim. Lembro-me que bastava uma palavra, um gesto, um olhar, o olhar dos outros para mim num segundo: tudo servia de pretexto para me encher literalmente de porrada. Lembro-me perfeitamente de estar a dar banho e ele surgia e eu tentando equilibrar-me na banheira só cobria o rosto porque tinha que ir trabalhar. Lembro-me de trabalhar com hematomas no corpo e na cabeça e da imensa tristeza e angústia de amar uma pessoa que me fazia tão mal e de acreditar sempre que a culpa era minha, que não devia ter dito, que não devia ter feito, que não devia ter falado, etc. (…) Mas com o tempo, lembro-me de uma vez ter bebido um copo de vinho com a comida que sobrava do jantar dos meus filhos, pois trabalho das 14:30h às 23horas e que bem que me senti! O sono veio depressa e assim comecei a beber sem me aperceber. Ninguém bebe só por um motivo, mas com tudo junto tornei-me mais fraca e débil e, por isso, não consegui dizer não. Depois de uma pessoa ser vítima, por vezes, torna-se agressora! Quando bebia batia nos meus filhos e hoje orgulho-me de aos 16 anos a minha filha reagir e dizer que ia à polícia e aquilo “bateu-me completamente” e ajudou a refrear-me. Nada justificava eu lhes bater, mas por vezes ficava sem paciência, aliada à preocupação e cansaço de ter que fazer tudo sozinha sem um amparo, deixava-me benevolente e permissiva, por um lado, e agressiva, por outro. Quando se fica sozinha e sem muitas bases de apoio, os pais tornam-se ambivalentes, porque culpam-se por tudo e isso torna-os mais inseguros, levando-os a extremos. (…) Fiquei marcada para toda a vida e espero ganhar esta guerra.”

Ana Ferreira

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