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benoite.jpg“Foi aos 55 anos que nasci para o feminismo. Foi preciso este tempo todo para sacudir a minha educação burguesa – artista, moderna, privilegiada; a minha situação de jovem rapariga arrumada, educada em escolas católicas, não mistas. Precisei de muito tempo, sobretudo porque era uma pessoa obediente, nada rebelde. Foi o ano de 1968 que me fez descobrir, finalmente que eu era feminista. O que eu não sabia. Não era uma teoria filosófica; era mesmo o resultado da minha experiência. 

Não se imagina, já não se imagina o desespero que sentíamos quando ficávamos grávidas. Teríamos tentado qualquer coisa! Qualquer coisa! Todas: as ricas e as pobres; as adolescentes e as mulheres que acreditavam que já estavam na menopausa; as prostitutas e as bem comportadas que só tinham tido relações uma vez e que estavam grávidas; as abandonadas e as mães que já tinham cinco filhos. Todas!

De facto, era uma tradição familiar. A minha mãe, que amava a literatura, a pintura, as artes, tinha-nos dado esta lei, à minha irmã e a mim: “ Todas as noites, minhas filhas, vocês escrevam, escovem os dentes. Eis as duas coisas que têm de fazer antes de adormecer”. Então, tínhamos cada uma o nosso jornal, que ela vinha ler em segredo como todas as mães que querem saber o que se passa nos meandros da alma dos seus filhos. Ter sido feminista não é mais virtuoso. E isto prejudicou-me no mundo literário porque me consideram uma autora feminista e não como uma romancista.

Queria seguir medicina e a minha mãe disse-me: “Se tu enveredas por medicina, equivale a sete anos de estudo, o que desencoraja um homem. Os homens não apreciam isso. É melhor fazer algo de mais gracioso”. Fiz uma licenciatura em Letras. Era preciso desobedecer para existir, naquele tempo, enquanto que hoje as raparigas, pelo contrário, são completamente livres. Elas fazem um ensino Politécnico, elas estudam o que querem.

Casei com um estudante de Medicina e ele morreu oito meses depois. Este casamento não foi longo. Mas isto deu-me um estatuto social. Era viúva, e isso, era um estatuto social. Coisa horrível de se dizer porque eu tinha sido feliz neste primeiro casamento, e não me arrependo dele, mas, sendo viúva, era uma mulher, desabrochei. Comecei a trabalhar com mais ambição e coragem. Existia”.

Tradução:
Sylvie Oliveira

Texto original: http://www.france5.fr/programmes/articles/arts-et-culture/1395-empreintes.php

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