Skip navigation

6a00d834558dbe69e200e54f43ef568834-500wi.jpg

No momento de iniciar o seu terceiro decénio, as ‘Mulheres de Negro’ progrediram desde a primeira manifestação contra a Ocupação israelita da Palestina.

Foi num dia tipicamente invernoso, em Jerusalém, que encontrei pela primeira vez Gila Svirsky. O tempo estava chuvoso, escuro e frio, a segunda Intifada ou Rebelião palestina acabava de eclodir há alguns meses atrás, a tensão emanava do espaço circunvizinho e não pressagiava nada de bom. Embora estivesse extremamente ocupada, Gila teve tempo de se vir juntar a mim na cidade antiga. É na cidade antiga de Jerusalém que começa a grande divisão Israelo-palestiniana. Apesar de as três crenças de Abraão mais sagradas convergirem aqui e do local estar sob a direcção israelita, os Judeus que vivem no exterior da cidade antiga ainda hesitam em visitá-la. E quando o fazem, como diz Gila, eles insistem em encontrar-se unicamente perto da Porta de Jaffa, à entrada dos bairros cristãos e arménios, mesmo se as outras portas estão mais próximas.

E, assim, degustando um delicioso almoço de humus e pão pia, acompanhado de kahwa, num velho restaurante cristão sírio nos bairros cristãos da cidade antiga de Jerusalém, eu conheci Gila Svirsky, a imagem pública das ‘Mulheres de Negro’.

Tudo começou há exactamente 20 anos, em Dezembro de 1987, pouco depois de ter eclodido a primeira Intifada ou Rebelião nos territórios palestinianos contra a ocupação militar israelita. Um pequeno grupo de mulheres judias de Jerusalém, como Dafna Amit, Mimi Ash, Ruth Cohen e Hagar Roublev, militantes da esquerda, uma mistura de professoras e outras mulheres decidiram lançar um protesto simples no sentido de expressar a sua fé na paz e exigir que Israel pusesse fim à ocupação dos territórios palestinianos. 

Um firme compromisso

Uma vez por semana, na mesma praça de Paris, no centro de Jerusalém, numa circulação importante, vestidas de negro para simbolizar o sofrimento e a tragédia dos palestinianos e israelitas, elas agitavam os seus cartazes com os seus emblemas – “as mãos negras” – e uma frase em árabe, hebreu e inglês: “Fim à Ocupação!”. Sérias e determinadas, prometeram voltar ao mesmo local até que Israel responda ao seu apelo. Inspiravam-se no “Black Sash Movement” da África do Sul, no qual as mulheres brancas lutavam contra o Apartheid e cujo emblema era o cinto negro para expressar o seu descontentamento com o sistema racista.

Gila Svirsky, a actual dirigente não oficial das ‘Mulheres de Negro’, reuniu o movimento em Janeiro de 1988. Nascida e criada numa família judia ortodoxa nos EUA, Gila instalou-se em Israel há cerca de 40 anos. Avó de 61 anos – espera que os seus netos não se alistem no exército israelita –, mantém-se firme no alto dos seus 80 metros. Com os seus cabelos brancos e óculos, os seus olhos brilham e ela explica: “Adoro Israel, mas isso não dá o direito aos israelitas de se instalarem nos territórios que não lhes pertencem; a nossa ocupação da Palestina é uma coisa má. Recuso-a para proteger o nosso país da corrupção da ocupação”. Os sentimentos de Gila encontram eco nos outros membros, mesmo que muitas tenham nascido e crescido em Israel, como Mary Rosenfeld, uma professora da Universidade hebraica de Jerusalém, ou Ditta Bitterman, uma arquitecta instalada em Telavive. O movimento estendeu-se a localidades como Telavive, Haifa e Nazaré. Rapidamente, as mulheres começaram a fazer vigílias em 40 lugares diferentes, em Israel.

Uma esquerda em crescimento

As vigílias revezam-se entre mulheres árabes, cristãs e muçulmanas, todas cidadãs de Israel. Nabiola Espanioli e Khulood Bdawi, militantes israelitas árabes, são os membros árabes das ‘Mulheres de Negro’ mais conhecidos.

Recentemente, as mulheres israelitas ouviram falar em “vigílias de solidariedade” no Canadá e EUA: ‘Mulheres de Negro’, judias e palestinianas, trazendo cartazes com o símbolo da mão negra e com slogans “Mulheres palestinianas e judias unidas” e “Dois Povos, dois Estados”.

As ‘Mulheres de Negro’ começaram a surgir em mais cidades europeias e, na viragem da última década, definiram o seu próprio objectivo, o que significa que muitos destes grupos não tinham mais nada a ver com a ocupação israelita, mas começaram a manifestar-se contra problemas locais próprios de cada grupo. Em Itália, as ‘Mulheres de Negro’ manifestavam-se contra a violência da máfia; na Alemanha, manifestavam-se contra o neo-nazismo e xenofobia; e em Belgrado e Zagreb, condenavam a guerra, a violação massiva das mulheres e os conflitos étnicos, criando um modelo de cooperação inter-étnico. Em Londres, as ‘Mulheres de Negro’ manifestavam-se contra a Operação Iraqi Freedom; agora, manifestam-se contra a ocupação deste país pelos aliados. Hoje, o Movimento internacional das Mulheres de Negro integra todos os movimentos e estudos feministas e pacifistas. As feministas, como Cynthia Cockburn e Haifa Zangana, estão orgulhosas de o integrar. Mas são as ‘Mulheres de Negro’ israelitas que reivindicam a sua criação.

Quando acompanhei Gila à sua reunião de sexta-feira, chovia e estava frio. Um grupo de mulheres e de homens de cara tapada, todos vestidos de preto, participavam numa vigília, assinalando o 14º aniversário do movimento. Todos e todas traziam um cartaz onde figurava o emblema da mão negra e o slogan “Fim à Ocupação”. Só uma palestiniana estava presente na vigília e, juntamente com uma mulher judia, seguravam um cartaz que dizia: “Recusamos ser inimigas”, uma afirmação simples mas poderosa. Os transeuntes reagiam. Alguns levantavam o braço para apoiar o grupo; outros insultavam-nos. Dois motociclistas abrandaram e mostraram, em silêncio, a foto de Rehovam Zeevi, o ministro israelita morto recentemente por uma bala dos palestinianos. A polícia apareceu, as manifestações das vigílias não tinham sido sempre tranquilas, foram por vezes ameaçadas e atacadas, acusadas de traição. Um dia, também importunaram os membros das ‘Mulheres de Negro’ que se tinham deitado em frente ao Ministério da Defesa para ilustrar o que representava a vedação dos territórios aos palestinianos.

As mulheres árabes sofrem também represálias. As ‘Mulheres de Negro’ tinham estabelecido ligações com as mulheres palestinianas da Cisjordânia. Kawther Salam, uma jornalista palestiniana habitante em Hébron, um membro na Cisjordânia, foi tratada com desprezo, como “uma traidora defendendo os judeus”, por muitos palestinianos. De resto, houve sempre diferenças ideológicas entre as mulheres israelitas e palestinianas.

Alguns anos depois desta sexta-feira invernosa, voltei a Jerusalém. Estávamos em Agosto e no momento da retirada de Gaza, o tempo estava muito quente e sufocante. E, de novo, numa sexta-feira ao meio-dia, enquanto estava quente como num forno, descobri um grupo de mulheres vestidas de preto numa vigília. Devido à retirada de Gaza, em relação à qual a maioria dos habitantes de Jerusalém se opunha, a atmosfera em Jerusalém estava carregada de ressentimento. Havia mais gritos do que aplausos. Frases como “Traidoras, amantes dos Árabes” eram lançados com mais cólera contra as ‘Mulheres de Negro’. Estas últimas estavam determinadas a não renunciar ao seu encontro com o destino. 

As ‘Mulheres de Negro’ completaram 20 anos recentemente e a sua vigília de 28 de Dezembro de 2007 sublinhou o seu 20º aniversário. Quinhentas (500) pessoas participaram na vigília, todas dizendo e prometendo não perder a esperança e procurar outros caminhos. Existe uma razão para se mostrar optimismo: as pessoas de Israel estão mais conscientes de que se deve pôr rapidamente fim à ocupação.

Da esperança

Esta foi uma viagem dura, mas houve momentos encorajadores. Existe movimentos de solidariedade em cerca de 150 cidades do globo. O movimento israelita recebeu o Prémio da Paz de Aachen (1991), o Prémio da Paz de São Francisco de Assis, em Itália (1994), o Prémio da construção da Paz da Associação judia para a Paz (2001). Em 2001, o Movimento internacional das ‘Mulheres de Negro’ recebeu o Prémio da Paz do Millenium da UNIFEM, da ONU. Os grupos das ‘Mulheres de Negro’ israelitas e sérvias foram candidatas também ao Prémio Nobel da Paz, em 2001. 

No ano de 2008, o movimento entra no seu terceiro decénio. Mas, como o diz orgulhosamente Gila um tanto deprimida: “Espero que estas vigílias não durem muito mais tempo. Espero que esta ocupação cesse em breve e que haja dois Estados, Israel e Palestina, lado a lado”.

Autora: Aditi Bhaduri

Tradução: Anabela Santos

Versão original: AQUI!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: