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As mulheres recusam assumir papel de agressoras, mas confirmam a prática de chantagem, manipulação e injúrias. Estudo tem por base entrevistas a homens e mulheres de classes altas.

É mais subtil. Assume a forma de chantagem, rebaixamento, manipulação, massacre verbal. E quase nunca deixa marcas físicas a violência conjugal que é exercida pelas mulheres no espaço conjugal. Os homens, apesar de perfazerem quase 10 por cento das queixas de violência doméstica que no ano passado chegaram à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, resistem a assumir-se como vítimas. “Quase sempre”, explica Cláudia Casimiro, autora de uma tese de doutoramento sobre violência conjugal, “porque continua a ser muito estigmatizante”.
“Se, do ponto de vista cultural, é muito complicado para uma mulher reconhecer que é vítima de violência exercida pelo marido, é-o muito mais para um homem, porque isso mexe com as noções de masculinidade e virilidade”, declarou a doutoranda do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, que está na recta final de um trabalho de doutoramento intitulado Violências na conjugalidade: Representações e práticas masculinas e femininas.
A partir das entrevistas feitas a 50 homens e mulheres de classes altas e escolarizadas, Cláudia Casimiro esmiuçou os pormenores da violência no feminino. “Os homens falavam do laxante que a mulher lhes pôs no chá antes de uma conferência importante, da mulher que lhes mudou a fechadura, das que usam os filhos ou se põem a falar mal da sogra para os magoar, das que insistem em dirigir-lhes comentários injuriosos na presença dos amigos, mas eles próprios resistem quando têm de assumir estes episódios como actos de violência”, contou a investigadora, cujos entrevistados apontaram a vitimização como outra das formas de violência das mulheres sobre os homens. “Se eles dão um berro, elas começam a chorar muito e a fazer uma grande cena. E eles sentem isso como uma espécie de manipulação”, especificou, congratulando-se com o facto de haver mais homens a assumir tais comportamentos como violentos. “Não sei se teremos cá casas abrigos para os homens como existem nos Estados Unidos e em Londres. Mas o que noto é que as pessoas vão estando mais à vontade para falar disso.”


No reverso da medalha, as mulheres recusam assumir-se como agressoras. Apesar de confirmarem os comportamentos. “Elas alegam que não fizeram com intenção de magoar, que perdem as estribeiras, que fervem em pouca água, que têm mau génio. Mas depois descrevem muito bem como se exerce essa violência”, nota a investigadora. No pacote da violência emocional exercida por mulheres inscrevem-se ainda comportamentos como a recusa do sexo e o massacre verbal. “E aqui nem sempre se pode falar em violência retaliatória ou defensiva. Muitas vezes são agressões proactivas”, ressalva Cláudia Casimiro.
Estado civil influencia
A tolerância demonstrada face à violência física não sistemática foi um dado que surpreendeu a investigadora. “Dar um empurrão ou um estalo são actos relativizados. É uma espécie de violência aceitável, desde que não seja sistemática. Eles dizem mesmo que faz parte da vida a dois e isso surpreendeu-me bastante.”
O estado civil também parece influenciar a percepção que as pessoas têm da violência. “Os casados mais dificilmente narram episódios de violência, ao passo que os divorciados ganharam um distanciamento que lhes permite falar disso, principalmente os homens”, nota, para reforçar a explicação: “É muito difícil a alguém reconhecer-se como alvo de violência e continuar casado.”
As representações da violência também variam consoante a geração. “Os sujeitos mais velhos, que foram socializados antes do 25 de Abril, tendem a associar a violência à noção do terrorismo patriarcal, em que o homem chega a casa e bate sistematicamente na mulher.” Já as gerações mais novas reportam outro tipo de violência: “Aquilo a que chamei a violência do estalo, a violência psicológica e a chamada violência miudinha, feita sem intenção de magoar e que ocorre esporadicamente, num contexto de zanga ou cansaço: uma resposta torta, o falar mais alto…”
Longe de resolver
Por outro lado, a percepção da violência também surge anexada ao estilo conjugal. “Pessoas com uma visão “tipo casulo” da vida a dois podem sentir a ausência reiterada, ou a recusa do outro em fazer compras a dois, como uma violência. Já nas conjugalidades mais associativas, em que os cônjuges são mais independentes, a percepção de violência está mais associada à intromissão do outro.”
Reconhecendo que o país está ainda “a anos-luz de resolver o problema da violência física atroz e tenebrosa de que muitas mulheres são vítimas”, Cláudia Casimiro diz ser importante que a sociedade desperte para outros tipos de violência. “Há 30 anos, uma mulher precisava de autorização do marido para sair do país e isso não era considerado violência. No entanto, hoje seria inadmissível”, contextualiza, dizendo-se convicta de que o seu trabalho contribuirá para que “mais pessoas se revejam nos discursos sobre o tema e se sintam menos isoladas”.
Dos 14.534 crimes de violência doméstica registados o ano passado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, 9,9 por cento foram perpetrados por mulheres. Os maus tratos psíquicos e os maus tratos físicos perfazem no conjunto mais de 60 por cento dos casos, sendo que o distrito de Lisboa somou 32,7 por cento das queixas.

Fonte: Jornal online “Publico”

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