Skip navigation

“Depois de Nojoud, de oito anos, que apareceu sozinha num tribunal e conseguiu ver anulado o seu casamento forçado, outras crianças no Iémen começam a seguir o seu exemplo.

Sally al-Sabahi, de 10 anos, está a brincar com amigos e colegas de escola. Mohammed al-Kibsi, do jornal Yemen Observer, está a vê-la no preciso momento em que falámos ao telefone. “Parece feliz agora que fugiu do marido a quem o pai a vendeu e com quem ficou apenas três dias”, relata. “Ela pensava que casar era ganhar roupas e presentes, mas quando foi obrigada a ter relações sexuais, ficou com medo.” Foi uma fuga durante a noite e de muito longe. Da província de Hajja, para onde o marido, de 25 anos, a levou, até Sanaa, a capital iemenita, a 200 quilómetros de distância, onde a mãe reside. Uma tia, comovida com as queixas da menina (“Não quero que ele faça coisas más comigo”), ajudou-a nesta viagem, conta Kibsi, que, desde o casamento de Sally, em Fevereiro, mantém propositadamente on-line (http://www.yobserver.com/editorials/10013811.html) um editorial a denunciar o desinteresse das organizações da sociedade civil por este caso.
“À excepção da advogada Shada Nasser, você foi a única pessoa que até agora me contactou a pedir informações”, lamenta Kibsi. “E sabe porquê? Porque Sally é pobre, e tanto os pais como o marido pertencem à classe mais baixa do Iémen, Al-Akhdam ou Al-Muhamasheen [os marginalizados].” O pai de Sally, identificado como Mabkhout, mercador ambulante, entregou-a a um tocador de tambor de rua em troca de um dote equivalente a 500 euros, mais um vestido de noiva estimado em 2000 riais (seis euros), um colar, uma pulseira e alguns anéis de ouro, posteriormente trocados por uma antena parabólica. No dia do casamento, quando viu chegar o futuro marido, Sally disse ao pai que preferia o irmão mais novo que o acompanhava (“ela queria-o para brincar e não para se casar”, explicou Kibsi), mas a sua preferência foi ignorada. Sem saber o que a esperava, a menina “continuou a dançar e a jogar”, e não chorou. As únicas lágrimas foram as da irmã mais velha, de 27 anos e casada à força desde os 13, que tudo tentou para impedir a repetição do seu destino; as da mãe, que ainda hoje não entende por que o ex-marido voltou, para gastar tudo em tabaco e qat (folha para mascar), depois de a ter renegado há três anos; e as das irmãs mais novas, de sete e seis anos, que amuaram porque “também queriam casar e receber prendas”.

Troca de noivos
Agora que a noiva fugiu de Hajja, a mãe “está a negociar uma troca: que a irmã do marido se case com o irmão de Sally”, revela Kibsi. “É uma situação trágica. Estas crianças não têm qualquer protecção. A sharia, a lei islâmica, diz que uma menina se torna adulta quando lhe aparece a primeira menstruação. Há um forte movimento de pressão para ser imposta uma idade mínima, mas não há acordo, porque os mais progressistas no Sul insistem em fixar os 18 anos, enquanto os mais conservadores, ligados às tribos no Norte, só aceitam os 16 ou 14 anos. Pelo menos 10 por cento das meninas neste país, sobretudo nas áreas rurais, casam na infância, numa média de 100 mil por ano”. Além de Kibsi, o jornalista, Sally sabe que pode contar também com a advogada Shada Nasser, que em Abril ajudou Nojoud Mohammed Ali, de oito anos, a anular o seu casamento com Faiz Ali Thamer, de 30. “Fui a Hajja e fiquei surpreendida quando vi que Sally já não estava com o marido. Há versões contraditórias, de vizinhos e familiares, mas parece que o marido não desiste de a recuperar porque pagou por ela. E Sally, que é muito tímida e menos corajosa do que Nojoud, nem sabe o que é o divórcio”, disse a senhora Nasser ao PÚBLICO, por telefone e e-mail. Nojoud, que depois de violada e espancada durante dois meses e meio, apareceu sozinha de táxi no tribunal, e teve a sorte de encontrar um juiz que fez dela a única menina no Iémen a anular um casamento forçado, continua a ser visitada duas vezes por semana por Shada Nasser. Retomou as aulas na escola primária e deixou a casa do tio materno (o único que se opôs ao seu casamento e que ficara seu tutor por ordem do tribunal) para voltar para junto dos pais. Nova “cliente” de 11 anos
A advogada ficou intrigada por Nojoud ter recusado um lar de acolhimento que o juiz recomendara e por ter perdoado quem a vendeu e lhe fechou as portas quando pediu auxílio. “Ela garantiu-me que tem sido bem tratada e que obrigou o pai [entretanto libertado da prisão] a prometer, por escrito, que nem ela nem a sua irmã serão obrigadas a casar contra a sua vontade. Ela sabe que o seu processo teve um grande impacto e que todos estão vigilantes”.  Shada Nasser assegura que cuida de Nojoud como da sua filha, Lamyia, de nove anos, que “estuda na British School, toca piano e aprende Francês”. E assegura que não irá desistir de lutar por estas crianças. A sua próxima “cliente”, a quem já ofereceu os seus serviços, é uma menina de 11 anos, que, tal como Nojoud, pediu o divórcio.”

Fonte: Jornal Publico

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: