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Alienação ou coesão no futebol foi o tema que esteve na ordem da noite passada, no debate da RTP1 “Prós e Contras”, apresentado pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

A alienação é um termo que implica o arrombamento do espírito, a loucura, a perturbação dos indivíduos, já a coesão é a manifestação da harmonia, da coerência, da unificação social. Deste modo, creio que caracterizar um fenómeno por uma dicotomia diferenciada não é a melhor opção. Tal como considerava o sociólogo interveniente neste debate, o futebol é “uma forma de encontro social”, que move as relações sociais, as interacções sociais e, por isso, constitui uma forma de contacto e de exploração da comunicação social e humana, independentemente das classes sociais de pertença.

Seguir o percurso do futebol é, efectivamente, uma opção, não é uma inevitabilidade. Logo, é complexo medir um fenómeno pela “euforia”, pelo fervor, dado que se presenceia um acontecimento, temporariamente. Nem sempre a história vivida é a história contada, ou seja, reforçar a importância deste fenómeno futebolístico, ao ponto de a comparar à história portuguesa passada, à capacidade de descobrir outros mundos, torna-se uma reflexão compulsória.

Não se ganha mais identidade em campo/no terreno por haver uma história de um país, até porque, nos dias que correm, o futebol ganhou marca e reforçou a sua rentabilidade económica, com recurso, a uma identidade simbólica. Assim, a imagem de marca do futebol deriva de uma estratégia conseguida pela área da gestão, do marketing e afins: usar a conquista portuguesa em matéria política, social e histórica, para vender o que o futebol tem de mais lucrativo para si mesmo.

Quanto a isto, tenho a dizer que o histórico tem uma relevância quando contextualizado em território i/emigrante. Ou seja, a luta pelas melhores condições de vida, a luta pela estabilidade e pela procura persistente do território estrangeiro representam por um lado, o que um país, dito nacionalista quando se trata de futebol, não consegue oferecer à sociedade, como é o caso de Portugal e, por outro, a conquista que sempre caracterizou o povo português quando compelido com fenómenos de corrupção, desemprego e marginalização. Em primeiro porque ainda há classes elitistas, mesmo quando criam uma imagem de que o são pelo seu esforço e competência, em segundo porque há desigualdade económica e uma forte segregação social e em terceiro porque baixos estratos sociais são sinónimo de baixo capital social e cultural. Ofegante!

A jornalista interveniente enfatizou o lado humano do futebol, mas eu diria o lado menos humano do futebol: “se o futebol é um espaço de rua dos homens, das mulheres é um adorno.” Isto é, os rostos estampados das mulheres dos futebolistas, a beleza das “carinhas larocas” entram em contradição com a ideia do homem que serve a “Pátria” e que, por isso, desenvolve o formal, a inovação, a competência, quando entra em campo, mas tudo isto  no masculino. Gostaria de aprofundar o termo “Mátria”, quando houver grandes competições femininas e quando no dicionário este conceito deixar de ser “a substituição arbitrária da Pátria”.

O futebol ganhou uma ideia de globalização e não passa de uma forma de arte, de técnica. O aspecto positivo é este, já o negativo é o exagero das marcas, das vendas e até das vendas de corpos humanos. O fanatismo acarreta, em certa medida, efeitos perversos.

O espírito crítico do mundo do futebol não representa, de maneira alguma, um discurso de elite, mas antes a liberdade individual. De facto, o nacionalismo exacerbado não deixa de ser a venda das marcas e das imagens ligadas ao mundo do futebol que exercem em cada um, mesmo que imigrante, a ideia de ligação, ligação esta imaginária. Acredito, contudo, que a ligação é humana, não é futebolística. O futebol não passa de uma marca vendida, que usa figuras humanas. Figuras estas que são elos em ligação pela saudade das suas raízes, dos seus familiares, quando se tratam de imigrantes.

De todo o modo, o futebol pode ser motivador socialmente, mesmo quando estejamos perante culturas de marcas, ao invés das culturas humanas. As marcas podem ter figuras humanas, mas nada contêm de humanitário.

Ana Ferreira

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