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Congresso Feminista reúne até sábado pessoas de várias origens  e ideologias unidas pela causa  da igualdade entre sexos

Defender que a igualdade entre mulheres e homens é imperativa e garantir que os direitos das mulheres não são discutíveis, já que são direitos humanos, são os objectivos que juntam mais de 600 pessoas no Congresso Feminista, que decorre na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, hoje e amanhã, e na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, no sábado.

“É preciso garantir que o núcleo de factores que hoje comandam o mundo não levam a um retrocesso, que há coisas que custaram muito a conquistar e que não se pode abrir mão delas, que não se pode aceitar sequer o retrocesso de admitir que os direitos humanos são discutíveis”, declara peremptória Leonor Beleza, 59 anos, presidente da Fundação Champalimaud e promotora do congresso, ao explicar o que faz juntar pessoas com perfis e origens ideológicas, filosóficas e religiosas tão diversas na realização do mesmo evento.

Para a antiga ministra da Saúde do Governo de Cavaco Silva e actual conselheira de Estado, “não se pode admitir que na sociedade haja grupos que ponham em causa a igualdade entre homens e mulheres, que ponham em causa os direitos humanos, pois os direitos da mulher são direitos humanos”.

Garantindo que este risco não existe “só por razões de confissão religiosa”, Leonor Beleza concretiza: “Com a crise económica, se há pouco emprego não pode ser admissível que as mulheres sejam discriminadas, sejam colocadas no desemprego, tenham salário diverso. E hoje há esse perigo de retrocesso.”

Objectivos semelhantes
Longe de estereótipos e preconceitos sobre o que é o feminismo, um conjunto abrangente de pessoas decidiu aderir à ideia lançada há dois anos pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). O resultado começa hoje e, como diz Leonor Beleza, este congresso mostra que “objectivos semelhantes podem juntar pessoas diferentes, com soluções diferentes”.

Se, há 80 anos, o II Congresso Feminista – o último a realizar-se em Portugal – apenas versou a educação, hoje as causas e temas do feminismo são múltiplas, como atestam os 30 painéis de debate previstos. Nestes debates serão feitas mais de 160 intervenções, por especialistas portugueses e estrangeiros, que perfilham doutrinas políticas diferentes e correntes feministas diversas, já que estão anunciados representantes do feminismo liberal, do feminismo marxista e do feminismo radical.

É, assim, consensual que o feminismo é plural e que apenas tem como objectivo uma mudança que ultrapasse o facto de que “vivemos numa sociedade em que há desequilíbrios profundos, entre ricos e pobres e também de géneros”, uma mudança que tem que se basear no princípio de que “os homens e as mulheres estão interligados e agem em sociedade”, diz Ana Vicente, 65 anos, dirigente do movimento católico Nós Somos Igreja e antiga presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos da Mulher.

Lembrando que os estudos que já foram feitos “mostram que no poder – político, económico, social, cultural – são os homens que têm a maior fatia”, Ana Vicente remata: “Porquê, se a humanidade é repartida? Não faz sentido. Ou então vamos ser consequentes e dizer que as mulheres são inferiores aos homens.”

O click do aborto
O congresso “é o resultado de uma caminhada que em Portugal se fez muito lentamente”, assume Maria José Magalhães, 49 anos, dirigente da UMAR e professora da Faculdade de Psicologia do Porto, apontando o momento em que as feministas portuguesas perceberam que tinham de se unir: “Foi com o aborto e a luta pelo sim que percebemos que separadas não vamos a lado nenhum.”

Mas, para Maria José Magalhães, o congresso é um marco importante, pois mostra a maturidade do feminismo português e resulta do “cruzamento do activismo com o estudo”. Foi esse cruzamento, garante, que “trouxe tranquilidade para aceitar pessoas com posições ideológicas diferentes”.

A deputada do Bloco de Esquerda Helena Pinto, 48 anos, também ela promotora do congresso, sublinha que o “objectivo da igualdade atravessa vários partidos, independentemente da ideologia”. É a busca de um objectivo que se “traduz, muitas vezes, em reivindicações concretas diferentes”. Como exemplo, lembra as quotas.

Ao lado de Albright
Aprofundando a análise que faz da questão, Helena Pinto especifica: “Tal como há contradição entre o capital e o trabalho, há a de género, pelo que existe a necessidade de um sujeito feminista, de que nascem movimentos, associações e agendas.” E conclui: “Posso divergir de uma feminista liberal, mas confluir com ela na causa da defesa da despenalização do aborto, como aconteceu na campanha. Em 2004, estive numa marcha pró-escolha, nos EUA, que era encabeçada pela Madeleine Albright. Mas se me sentar com uma feminista liberal a discutir o Código do Trabalho, provavelmente divergimos.”

Paula Teixeira da Cruz, 48 anos, ex-dirigente do PSD, que hoje à tarde participa no painel sobre Feminismos e poder político com Helena Pinto, entre outras intervenientes, acrescenta que “há um conjunto de questões em que ainda é necessário impor a igualdade – basta pensar na violência doméstica”.

E, insistindo em que o que está em causa é o respeito pelos direitos humanos, afirma: “Não sou optimista. A directiva da imigração é um retrocesso nos direitos humanos e no que a Europa fez nas últimas décadas. Pergunto-me: para onde vamos? É isso que é importante discutir. Mais do que uma resposta ideológica, o que une as pessoas são os princípios. O pragmatismo não pode justificar tudo.”

Fonte: Jornal “Público”, versão impressa 26 de Junho de 2008

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