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Maria José Casa-Nova, que há 15 anos faz investigação sobre esta comunidade, desmonta a ideia feita.

Pode dizer-se que parte significativa dos portugueses de etnia cigana não se interessa pela escola. Não pode dizer-se que não gostam da escola, sublinhou ontem Maria José Casa-Nova, da Universidade do Minho, na conferência sobre os dez anos do Programa para a Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil (PETI). Uns valorizam a funcionalidade no dia-a-dia: aprender a ler e a escrever, tirar carta de condução. Outros valorizam o aprender a falar “com as palavras certas”, a “estar como deve ser”.

“Dentro das minorias étnicas presentes na sociedade portuguesa, os ciganos continuam a ser aqueles que apresentam um menor índice de aproveitamento escolar”, recordou. Porquê? A escola aberta “é uma construção recente”. Os ciganos “encontravam-se, não de lei, mas de facto, excluídos do sistema de ensino português até ao 25 de Abril de 1974”. Os nómadas, “pela obrigação legal de itinerância”. Os semi-sedentários e sedentários, “pela exclusão a que eram votados”.

Dantes, ainda que elitista, a escola favorecia “percursos de mobilidade social”. Agora, “uma longa escolaridade já não garante acesso a postos de trabalho qualificados”. E isso pode gerar “desencanto, abandono escolar precoce, insucesso”. Os ciganos já foram incorporados na escola neste período das incertezas. Mas não é só isso. A cultura cigana, de transmissão oral, valoriza mais “o pensamento concreto e o conhecimento ligado ao desempenho de actividades quotidianas que garantem a reprodução cultural e social”. A cultura dominante, de transmissão escrita, valoriza mais “o pensamento abstracto e o conhecimento erudito”.

Os estudos de Maria José Casa-Nova mostram “uma tentativa de inculcação de determinados valores através da escola”. Mais do que os conteúdos curriculares, nota a investigadora, “é a forma e organização do trabalho pedagógico na sala de aula” que incomoda os ciganos, que os leva a “construir uma multiplicidade de pretextos e estratégias para abandonar a sala a meio da aula ou para faltar às aulas no dia seguinte”. Sentem que a sua cultura é minorizada. De repente, têm dores de cabeça, um familiar doente, um irmão mais pequeno para cuidar.

No Programa de Educação e Formação (PIEF), medida do PETI destinada a miúdos que já abandonaram a escola, a investigadora coligiu relatos que, de modo geral, revelam “um desejo de aprendizagem sobre o outro”, um voluntarismo que compreende a importância de uma relação de confiança entre a escola e as famílias, mas também encontrou equipas que tendem a definir os jovens pelo que lhes falta.

Os pais resistem à escolarização dos filhos, sobretudo das filhas. As mães protagonizam o desejo de ver os filhos mais escolarizados. E os professores e técnicos sentem que ali os miúdos se “consideram menos desiguais”, por conseguirem aprender o que é suposto. Medidas como o PIEF, porém, “devem existir como excepção e não como regra”, são “um paliativo”.

“A educação escolar constitui-se numa forma de poder” – “não uma escolarização pensada de forma remediativa, mas uma escolarização no saber socialmente valorizado”, enfatiza. E um dos maiores desafios das sociedades contemporâneas, conclui, “consiste em perspectivar a diferença a partir da própria diferença”.

Um dos maiores desafios das sociedades “consiste em perspectivar a diferença a partir da própria diferença”.

Fonte: Jornal PUBLICO (versão impressa online/ 4 de Julho de 2008/ Reservados os direitos de autor)

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