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Crónica de Caroline Fourest
Versão original: Le Monde

“Um tal desprezo diz muito sobre o caminho que falta percorrer. O feminismo não é uma história de “ raparigas”, mas a história de um humanismo revolucionário que abalou o mundo, como poucos ideais podem se vangloriar de o ter feito. Isto merece que consideramos séria a sua história”.

 

Uma doce OPA está a ser feita sobre o Movimento de Liberação das mulheres. Na semana passada, Le Parisien e o Ouest France anunciavam “ os quarenta anos do MLF (Mouvement de libération des femmes.). Com dois anos de antecedência. Estupefacção para as feministas. Estariam elas a ser espreitadas pela doença de Alzheimer? Estaríamos nos já em 2010? Na opinião das historiadoras como das militantes, os “ anos movimento” começaram em 1970. Feministas estavam de facto nas activistas do Maio de 68, mas as suas preocupações, não era a prioridade do mês de Maio, sobretudo a dos seus colegas rapazes. Foi preciso esperar 1970 para assistir a um movimento que reivindicava a liberalização das mulheres através de uma série momentos fortes colectivos: reunião na faculdade de Vincennes, entrega de flores para a mulher do “ soldado desconhecido” e o numero da revista de Partisan que proclamava: “ Feminismo: ano zero”.

Mas então qual a causa desta precipitação e porque alguns médias datam subitamente a acta de criação do MLF no primeiro de Outubro de 1968? Esta data não corresponde a nada … a não ser ao aniversário de Antoinette Fouque. Tão cómico que isto possa parecer, esta antiga deputada europeia, fundadora das Editions des femmes, pensa que se recorda de ter evocado a questão com duas amigas no dia do seu aniversário em 1968. O que faria dela uma das “ fundadoras” do MLF. O seu serviço de imprensa não poupa esforços para difundir esta ideia. Ouest-France anunciou-o: “ há quarenta anos Antoinette Fouque criou o MLF”. A época é propícia aos embustes. E não só na Internet. Só o facto desta mentira mediática funcionar diz muito sobre o desconhecimento, até mesmo o desprezo para com a história do feminismo, julgada secundária. De relembrar esta verdade simples: ninguém fundou o Movimento de Libertação das Mulheres. Não se decreta um movimento social, sobretudo um composto por esta variedade de correntes e de grupos. Antoinette Fouque et a sua corrente não era mais do que uma das muitas correntes destes “ anos movimentos”. ( Livro de referencia de Françoise Picq).

Psicanálise e Política, é o seu nome, reunia sobretudo admiradoras, devido a uma mistura peculiar de psicanálise e política de inspiração maoîsta. O “ culto da personalidade” dava por ver azo ao pensamento, sobre um modo que varias feministas descreveram como “sectário” no livro: “Chronique d’une imposture”. Quanto às suas ideias, Antoinette Fouque nunca parou de atacar as “ posições feministas-universalistas, igualizadoras, assimiladoras, normalizadoras” de Simone de Beauvoir. Ela seria mais do estilo a aclamar o direito a diferença e  a superioridade da fisiologia feminina, dita “ matriz”, sobre o modo essencialista quase de druidas.  Nos seus textos ela reivindica a “ carne viva, falante e inteligente das mulheres”.  O facto que as mulheres têm um útero – apresentado como o “ primeiro lugar de acolhimento do estrangeiro” – explicaria a sua “ personalidade Xenofilia. Como se todas as mulheres eram por natureza incapaz de ser nacionalistas ou Xenófobas. Mesmo santa Sarah Palin? Alguns observadores aplaudem a sua feminidade e o seu “ estilo não fálico”. No entanto esta “ pitbull com batão”, como ela gosta de se apresentar, dispara com caçadeira sobre o urso brando de Alaska e sonha acabar o trabalho no Iraque.

O feminismo de caricatura sempre alcançou sucesso por parte das não-feministas. Longe de desconstruir as bases naturalistas e diferencialistas que estão na origem da dominação masculina, este feminismo essencialista pede emprestado os seus códigos e contenta-se de inverter os papéis. Não esta em questão a igualdade nem de desconstruir o mito social associado a diferença dos sexos. É só preciso substituir o “sexo forte” pelo “sexo fraco”, o patriarcado pelo matriarcado,  e já está. O grande público aplaude. Qualquer feminista, nem que seja um pouco universalista, igualitária ou só sensata, teria mais vontade de chorar. Têm ainda mais dificuldade a digerir a OPA de Antoinette Fouque sobre o MLF já que não se trata da primeira tentativa. Em 1979, enquanto que esta grande sacerdotisa da feminilidade que já recusou o rótulo de feminista – por ser um horrível conceito “igualizador” , eis que deposita o acrónimo “MLF- Mouvement de libération des femmes” ao Instituto nacional da propriedade industrial, para poder explorá-lo de forma comercial. Depois disso as suas admiradoras são gozadas pelo círculo feminista. Mas a memória só vale se ela for transmitida. Mas, para isto, Antoinette Fouque dispõe de meios financeiros não negligenciáveis. Com esta aptidão comercial, a sua casa de edição, permitiu a edição de  centenas de autoras que contribuíram para a historia das ideias, até as vezes num sentido feminista, Mas isso não muda que Antoinette Fouque não é  a fundadora do MLF.

O que pensaria se meia dúzia de amigos decidissem se proclamar “ fundadores” de Maio de 68 porque sonharam com barricadas dois anos antes? Um tal embuste nunca vai passar. Enquanto que esta recusa de OPA grotesca levanta alguns comentários divertidos, tentando reduzi-la a uma “ disputa entre raparigas”. Um pouco como se o debate entre o direito a diferença e o direito a indiferença no seio do anti-racismo era simplesmente uma disputa de negros e “rebeux” [ imigrante de origina magrebina ]. Um tal desprezo diz muito sobre o caminho que falta percorrer. O feminismo não é uma história de “ raparigas”, mas a história de um humanismo revolucionário que abalou o mundo, como poucas ideais podem se vangloriar de ter feito. Isto merece que consideramos séria a sua história.

Tradução

Sylvie Silva Oliveira

One Comment

  1. «Nada é permanente neste mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas.»

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