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Monthly Archives: Janeiro 2007

Sylvie Oliveira

SylvieO6@hotmail.com

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[Continuação da entrevista à vice-presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Maria José Magalhães.]
3. A fundadora do Movimento da Libertação das Mulheres, Maria Teresa Horta, sustenta que uma feminista, hoje, “tem de ser muito mais criativa e ousada, maleável sem quebrar, implacável sem ter que chegar ao braço de ferro”. Como é que a UMAR interpreta esta afirmação?
M.J.Magalhães: Maria Teresa Horta é e será sempre uma fonte de inspiração para mim e para a UMAR. Digo-lhe que já reflecti muitas vezes sobre esta frase de MTH, que ela proferiu no I Encontro sobre o Movimento Feminista organizado em Lisboa pela UMAR.

Criativa, é verdade: não há para as feministas nenhum manual para o nosso activismo. As formas de activismo político dos outros movimentos sociais (por exemplo, dos trabalhadores) não nos servem, por diversas razões (até desenvolvi isso na minha tese de doutoramento): 1º, não dá muito fazer manifestações, porque as mulheres não se mobilizam muito para fazer manifestações e algumas delas não gostam mesmo nada dessa forma de activismo; 2º as mulheres pertencem a diversas classes sociais, diversas etnias, diversos partidos políticos, diversas ONG’s, diversas orientações sexuais… por isso, temos que arranjar formas criativas de fazer ouvir a nossa voz e de unir o maior número de mulheres em torno da necessidade de mudar as formas que ainda nos discriminam; 3º pensar uma sociedade assente na igualdade de género, o que já foi considerado querer um mundo ao contrário, exige muita criatividade para podermos conceptualizar a mudança: quem pensaria, no princípio do séc. XX que Mary Robinson pudesse vir a ser presidente da Irlanda? Ou que Maria de Lourdes Pintasilgo pudesse vir a ser primeira-ministra de Portugal? Ou que as mulheres pudessem vir a ser juízas ou astronautas? Que heresia!?

Ousada, também. Se não ousarmos, como poderemos pensar que outro mundo é possível?
Maleável, pois: aprendi, em 1983 (ou 1984, não recordo com exactidão), num encontro feminista internacional que é necessário, na luta feminista, sabermos respeitar reivindicações e perspectivas diferentes, por vezes até contraditórias; a palavra de ordem desse evento foi: “aquilo que é bom para mim, não é necessariamente bom para ti” (ou “aquilo que é bom para ti, não é necessariamente bom para mim”). Isto ensinou-me a necessidade do diálogo, da flexibilidade e abertura à outra mulher, àquilo que é importante e urgente para ela num dado momento. Se não tivesse aprendido isto, já teria deixado a luta feminista há muito tempo. Por vezes, temos uma reunião ou uma acção programada, muito importante, e uma das mulheres cruciais nessa acção, afinal não pode ir: tem o filho doente, a mãe está com alzeimer, o pai foi internado… Isto é algo que não se passa com o mundo do activismo político (sindical, cultural, autárquico, partidário, etc.) onde impera uma perspectiva masculina e eles, a não ser quando vão mesmo para o hospital, não deixam de aparecer (se estiverem realmente motivados). Com as mulheres é diferente. Podem estar muito motivadas e isso não impedir que tenham que faltar. Com o tempo, isto também favoreceu a minha forma de estar no activismo político, porque também me permitiu conciliar com a minha função de mãe ou de filha — e sentir-me uma pessoa mais completa, porque sei que não tenho que descuidar a minha vida familiar, existe um trabalho em equipa que nos permite (às vezes com alguma tensão) dar conta do activismo e manter a nossa vida pessoal, familiar e profissional com algum equilíbrio. Claro que não temos a eficácia e a eficiência de outro tipo de organizações que têm sempre as respostas e as reacções prontas e de imediato. Mas simultaneamente, a mudança é mais radical porque a fazemos mudando todas as dimensões da vida e não apenas uma.
Implacável, porque por vezes temos que ser duras, e o que mais custa é que temos que ser duras com as pessoas de quem mais gostamos. A traição às reivindicações feministas vem, habitualmente, dos sectores que menos esperamos. Se não, vejamos o exemplo do Guterres que, em 1997, negociou o acordo com o PSD com os nossos úteros. Eu, pelo menos não esperava. Temos muitas mulheres do PS na nossa organização e elas também não esperavam. Faz lembrar a traição dos republicanos às mulheres da Liga de Mulheres Republicanas no início do séc. XX, aquando da 1ª República. No termo da monarquia, prometeram o voto às mulheres e quando ganhou a República, recuaram e não cumpriram o que prometeram, com a desculpa de que as mulheres votavam de forma mais conservadora. Isto levou Ana de Castro Osório a sair da Liga e a fundar a Associação de Propaganda Feminista. Mas não vale a pena fazer braços de ferro, porque o resultado pode ser ficarmos sem o braço.

Anabela Santos

AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt


[Continuação da entrevista à vice-presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Maria José Magalhães.]
2. Desde a sua génese à actualidade, os movimentos feministas nunca conseguiram recolher um respeito unânime do público. Que motivos justificam o descrédito que lhe foi e é endereçado?
M.J.Magalhães:Eu não falaria em descrédito desta forma tão generalizada. Penso que o feminismo teve e tem tido momentos em que tem sido mais desacreditado e outros em que tem sido valorizado. Tal como qualquer outro movimento social; podemos pensar, por exemplo, no movimento das classes trabalhadoras e não podemos dizer que ele esteja agora muito credibilizado, ou que tenha sempre recebido a credibilização pública. Por exemplo, no caso português, o feminismo atravessou um momento muito importante na 1ª República em que granjeou o reconhecimento de muita gente — evidentemente não de pessoas que depois estiveram na base do golpe de estado do “Estado Novo” e que depois apoiaram o regime salazarento. As organizações feministas que continuaram durante o Estado Novo foram alvo de perseguições e foram proibidas (a Associação de Propaganda Feminista, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a Associação Feminina Para a Paz, entre outras).
Efectivamente, um movimento social e uma ideologia que propõem a alteração de uma ordem social que aparentemente assenta numa desigualdade “natural”, não podem, de forma imediata, obter o crédito do público. Só com a desconstrução progressiva dessa “naturalização” podemos conseguir que as pessoas credibilizem uma perspectiva de mudança social que parece querer colocar o mundo às avessas.
No entanto, penso poder afirmar que atravessamos mais um momento histórico em que podemos vir a reganhar algum do crédito público em relação ao nosso movimento. E a prova está, entre muitas outras coisas, no facto de algumas feministas assumidas serem mulheres de grande prestígio, serem ouvidas com respeito pela própria comunicação social e, mais importante ainda, que algumas das nossas reivindicações que eram consideradas absurdas e inusitadas nos anos 1980 — como a violência doméstica, por exemplo, ou a paridade — estejam a obter o apoio de grande parte da população. Mas outras reivindicações há pelas quais ainda é preciso lutar com muito afinco e uma delas, o combate está aí à porta — o aborto a pedido da mulher.
Anabela Santos
A União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), uma organização não governamental “empenhada em despertar a consciência feminista na sociedade portuguesa”, acaba de completar três décadas de luta e dedicação a uma causa que ainda não foi plenamente conseguida: a Igualdade de Género. A vice-presidente da associação, Maria José Magalhães, desmistifica o conceito de feminismo, esclarece o papel dos seus apologistas e avalia a expressão do movimento feminista em Portugal numa entrevista concedida ao ‘O Mal da Indiferença’.1. O que é ‘ser feminista’?

M.J.Magalhães: Existem muitas definições de feminismo, mas habitualmente eu uso uma que vai buscar a Karen Offen: é uma perspectiva sobre o mundo e sobre a vida que inclui três dimensões – a dimensão teórica e de investigação, a dimensão de movimento social e a dimensão de ideologia. Na base desta perspectiva, está a importância de considerar que as mulheres têm sido e continuam a ser discriminadas, subordinadas ou oprimidas em relação aos homens e a consideração da necessidade de mudar este estado de coisas. É, no entanto, uma perspectiva plural, isto é, alberga no seu seio diferentes posições e propostas estratégicas de mudança para a transformação social da desigualdade de género.
Neste sentido, ‘ser feminista’ é, como eu afirmo no meu livro, de alguma forma concordar que existe esta desigualdade e considerar que é preciso ser alterada. Não significa, no entanto, que ser feminista exija necessariamente que se integre algum grupo de acção (mais ou menos político, mais ou menos cultural). Pode ser-se feminista, sem ser activista. Também não é restrito a mulheres. Os homens também podem ser feministas, tal como os brancos e as brancas podem ser anti-racistas, e as/os empregadores/as podem ser marxistas. Também não é necessária maior coerência nas atitudes e na vida do que as pessoas não feministas. Todas/os nós somos, por vezes, incoerentes com os princípios e a filosofia de vida que defendemos. No entanto, considero que é importante a pessoa assumir-se como tal. Ou seja, se a pessoa não se assume, parece-me difícil considerá-la como tal. Mais ainda, considero importante também o reconhecimento de mulheres (e homens) que, na história, têm contribuído para a melhoria do estatuo social das mulheres e a valorização dos contributos e das especificidades das mulheres (sobretudo de mulheres concretas e reais, e não das noções abstractas e idealizadas de mulher). Finalmente, o reconhecimento das formas de discriminação, de opressão e subordinação das mulheres, deve elucidar-nos sobre os mecanismos pelos quais as mulheres são habitualmente prejudicadas, e, nesse sentido, considero que é importante que as/os feministas não se armem em moralistas ou educadores/as do que quer que seja e sejam mais duros com as mulheres do que são com os homens, em termos da crítica às suas actuações e das exigências ao seu desempenho.
Anabela Santos