Skip navigation

Monthly Archives: Maio 2006


Izabela Araújo é uma jovem brasileira que encetou a prostituição com apenas 18 anos, por influência de uma amiga. Considera-a “uma maneira rápida e muitas vezes prazeirosa de se ganhar a vida”, mas não esquece os seus riscos. “Só consegue sobreviver quem tem muita garra, auto controle, inteligência e objectivos”, enfatiza.Abandonou a prostituição aquando do seu casamento com um dos “seus primeiros e mais assíduos clientes”. Contudo, após a separação reintegrou-se no meio de modo a “manter o mesmo padrão de vida”. Actualmente, trabalha como scort girl, atendendo os clientes em motéis, hotéis ou na residência do cliente. Em entrevista ao O Mal da Indiferença, Izabela considera que o sentimento da sociedade em relação à prostituta é um misto de amor e ódio, mostrando-se preocupada com o crescente preconceito.
Há quantos tempo permanece na prostituição?
Izabela Araújo: Comecei aos dezoito anos, casei-me dois anos depois com um dos meus primeiros e mais assíduos clientes, passei seis anos casada, me separei em 2004 e voltei a fazer programas. No total, tirando o período do casamento, já são três anos e cinco meses.
No Brasil, quanto aufere uma prostituta, mensalmente? É uma quantia suficientemente aliciante para incentivar outras mulheres?
Como não tenho todo o tempo do meu dia disponível para os clientes, meus ganhos giram em torno dos 8000 reais, para um país de desigualdades sociais em que a maioria tem que sustentar suas famílias com o mínimo (R$350,00), acho que aliciaria até outros homens.
Quando tenciona abandonar a prostituição?
Quando comecei queria apenas um carro, comprei. Depois pretendi ter minha casa própria, já estou morando nela. Agora luto por um negócio que me dê uma renda mensal, entrei no ramo de locações de imóveis. Não sei se conquistando mais esta etapa conseguirei parar. Acho que enquanto existirem homens que me queiram estarei sempre na activa.
Como é o dia-a-dia de uma prostituta?
Depende. No meu caso, só viro prostituta no quarto ou quando escrevo um texto para o Madame Bela. Meu dia a dia é normal, vou a academia, ao supermercado, como em fast foods, pago minhas contas, estudo, vejo TV. faço tudo igual, a única diferença entre mim e outras mulheres é que faço sexo com desconhecidos e recebo um pagamento em dinheiro depois do sexo.
Estabelece algum tipo de relação com o cliente para além da profissional?
Pode acontecer, depois de alguns programas com o mesmo cliente, que a relação se torne mais pessoal, o que na verdade atrapalha mais que ajuda. É comum os homens confundirem alguma afinidade com um relacionamento que na verdade não existe. Tento evitar este tipo de envolvimento, mas tenho clientes que viraram meus amigos e já tive clientes que viraram namorados e até marido. Então, nem sempre é possível manter uma relação profissional apenas.
Durante o período em que esteve casada, não se prostituiu?
Não, eu e meu marido passámos a trabalhar juntos num mesmo negócio.
Porque voltou para a prostituição após o divórcio?
Para manter o mesmo padrão de vida de quando casada.
A quem recorreu para voltar a entrar no meio?
Ninguém. Experiência e coragem não me faltaram.
Como caracteriza a reacção da sociedade brasileira face ao fenómeno da prostituição?
Se comportam como lobos em noite de lua cheia. Nos desejam, sentem medo, curiosidade, nojo. Muitas mulheres gostariam de ter coragem suficiente para serem prostitutas, ainda que por um dia, e muitos homens tem o desejo de satisfazerem sexualmente uma prostituta. Somos amadas e odiadas ao mesmo tempo, mas o que mais machuca é o preconceito, não apenas das outras pessoas, mas o nosso próprio. Acredito que seja assim em todo lugar.
Considera que a regulamentação da prática da prostituição beneficiaria as pessoas que se prostituem?
Não. Não acho que será legalizada um dia, gostamos do que é imoral. Legalizar significará aceitar como certo e nenhum pai ou mãe diria: Meu sonho é que minha filha seja prostituta quando crescer. Acho que as prostitutas são livres o bastante para não aceitarem contratos de trabalho, pagamento de impostos sobre os lucros do seu próprio corpo. A melhor alternativa é deixar como sempre foi, é o que eu acho.
Anabela Santos
Anúncios

Não chegam os dedos das mãos e dos pés as vezes em que tive de andar armada para evitar problemas.”

Maria tem 18 anos, e reside no Porto. Tinha 15 anos quando começou a prostituição. Depois de uma breve paragem quando conheceu o pai da sua filha e engravidou, recomeçou aos 16 anos.
Após ser expulsa de casa, tentou sobreviver ao trabalhar num café mas as circunstâncias levaram-na para o mundo da prostituição. Segundo ela é uma profissão rentável mas com muitos riscos, logo não a aconselharia a ninguém.
Fica então aqui a entrevista com uma”escort girl”, mais um testemunho de prostituição de interior.
Sylvie: A tua família ou os teus amigos sabem desta tua escolha? Se sim qual foi a reacção deles?
Maria: Os amigos próximos sempre souberam, nunca escondi nada. Compreendem perfeitamente, falamos sem problemas sobre o assunto e até me pedem imensos conselhos de foro sexual. Da minha família, só a minha irmã tem conhecimento. Neste caso quem me dá conselhos é ela, também entendendo a minha opção. É uma das minhas melhores amigas e confidentes.
Sylvie: Estudas ou tens outra actividade profissional?
Maria: Estudar só o código da estrada (risos). Tenho outra actividade há cerca de um ano, que conjugo facilmente com esta.
Sylvie: Em que circunstâncias e quais foram os motivos que te levaram a esta escolha?
Maria: Atritos familiares. Quando fiz os 15 anos, acabei por ser expulsa de casa. Trabalhava num café mas acabei por ser despedida. Um dia, entrei num café da minha aldeia e o dono que era ‘tarado’ por miúdas fechou a porta e quis obrigar-me a ter relações com ele. Sabendo que não conseguiria safar-me sem colaborar, e sendo ainda virgem, aceitei, na altura, uma determinada quantia e fiz-lhe sexo oral. A situação acabou por repetir-se diversas vezes. Mais tarde parei, perdi a virgindade com o pai da minha Filha, e, depois de ela nascer, decidi ‘trabalhar’ a sério.
“Chego a ganhar num mês o que muita gente ganha num ano.”
Sylvie: Quais são os benefícios e as dificuldades que enfrentas no teu dia-a-dia?
Maria: Seria impossível não falar da recompensa monetária. É a maior vantagem de todas. Depois há o facto de conhecer gente de todos os tipos, que de outra forma, provavelmente, não seria possível conhecer. Escusado será dizer que as carências sexuais também são, assim, muito menores, e a aventura é uma constante.
As dificuldades são na grande maioria a hipótese de encontrar clientes violentos, ou até assaltantes. Não chegam os dedos das mãos e dos pés as vezes em que tive de andar armada para evitar problemas.Sylvie: Qual é o perfil dos teus clientes, entendo por isso idade, estrato social. O que procuram?
Maria: Sendo Escort Girl (só me desloco a hotéis e motéis) sou maioritariamente procurada por empresários, turistas, actores, futebolistas… Regra geral com idades entre os 30 e os 50 anos. Classe média/alta. Procuram, em geral, a excitação que já não obtêm em casa, o prazer de estar com uma rapariga diferente, e, em alguns casos, escolhem-me por ser tão nova. Há também uma grande parte que me contacta a fim de realizar fetiches e fantasias mais ousadas, que não querem
pedir as companheiras, obtendo assim satisfação sexual sem com isso afectar a estabilidade amorosa.

“Fica-se deslumbrado com enorme poder monetário, e torna-se angustiante viver com o salário mínimo. “

Sylvie: A prostituição é considerada uma actividade rentável. Segundo a tua experiência quanto ganha uma prostituta?
Maria:
Muito rentável. Conheço poucas actividades tão rentáveis. Não posso dizer ao certo quanto recebo, porque todos os meses variam consoante os dias que trabalho e as marcações que tenho. Tiro sempre pelo menos uma semana de folga por mês. Mas posso adiantar que por vezes, chego a ganhar num mês o que muita gente ganha num ano.
Sylvie: Por quanto tempo, pensas manter esta actividade?
Maria: Devido a projectos que pretendo seguir, tenciono deixar a prostituição dentro de meses; provavelmente até ao fim deste ano.Sylvie: Consideras que a prostituição é uma profissão?
Maria: Sem dúvida que sim. Aliás, uma profissão difícil; sem horários, sem conhecimento do dia seguinte, sem contratos válidos, sem nada que nos assegure o futuro propriamente dito. Por estas razões, respeito todas as minhas ‘colegas’ e sou a favor da legalização.

Sylvie: Aprovas a legalização da prostituição. Acreditas que pode trazer benefícios?
Maria: Aprovo a 100%! Traria, sem dúvida, imensos benefícios. Por exemplo; como acompanhantes, devemos fazer analises clínicas detalhadas pelo menos de 2 em 2, ou de 3 em 3 meses. Tendo em conta que não é uma actividade legal, e por isso não reconhecida, não existe comparticipação do estado nesses serviços. Eu chego a gastar uns 1500 euros por ano em analises, mas esse factor ‘assusta’ muitas colegas, que acabam assim por optar não gastar tanto dinheiro nesse tipo de coisas, correndo assim o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis e contaminar clientes sem o saber. Isto é apenas um exemplo, já de si bastante assustador. Se fosse uma profissão legalizada seria tudo mais fácil em muitos aspectos.

Sylvie: Como achas que este tema é abordado em Portugal?
Maria: Penso que, apesar de algumas melhorias, é ainda um assunto tabu. Todos sabem que a prostituição existe, mas todos tentam ignorar, fingir que não. Como se isso fizesse desaparecer o ‘problema’ por artes mágicas. Mau, muito mau.

Sylvie: Para terminar, aconselharias ou já aconselhastes esta opção de vida aoutras pessoas?
Maria: Não. Pelo contrário, já desaconselhei. Recebo diariamente e-mail de mulheres pensando em entrar na actividade, e explico sempre que são mais espinhos que rosas. Para além disso, é viciante. Depois de entrar fica-se deslumbrado com enorme poder monetário, e torna-se angustiante pensar em voltar a viver, por exemplo, de um salário mínimo.

Sylvie Oliveira

Na periferia ou nos centros urbanos, a prostituição é uma prática manifesta que transforma espaços como áreas residenciais/comerciais ou vias rápidas e circulares em palcos nos quais inúmeras mulheres encarnam o papel das suas vidas.
Expostas ao olhar de vilipêndio da sociedade, vendem ou leiloam um corpo que, por breves instantes, se metamorfoseia num instrumento de trabalho (para uns) e de prazer (para outros). Constituem uma subcultura ou conjunto organizado (a partir da idade, sexo, aspecto físico e dependência de drogas), que se rege por normas que cada uma deve respeitar de forma a garantir a sua segurança e a do próprio grupo.
Na rua, as mulheres de sorrisos plastificados e olhares previdentes confundem-se, mas os motivos pelos quais enveredaram e permanecem no meio prostitucional são distintos.
Para muitas, a decisão é tomada (aparentemente) de uma forma livre, sem a intervenção de um agente coercivo, pelo menos, explícito. Empreendem esta actividade porque encontram nela uma forma rápida de alcançar, a médio ou longo prazo, uma vida repleta de conforto e adornos de bem-estar. São mulheres que apresentam uma aparência física cuidada e uma auto-estima elevada. Abandonam mais cedo a prostituição e constituem uma minoria.
Por outro lado, há as que encetam a prostituição coactivamente, ou seja, cuja margem de decisão arbitrária é elevada à nulidade (são denominadas de heterodeterminadas). O proxeneta é, frequentemente, o elemento que encarcera a mulher nesta actividade. Hodiernamente, esta figura assume-se como o explorador da prostituta e o seu papel de protector de outrora desfalece-se de modo progressivo. Para além deste, as causas biológicas também mantêm as mulheres na prostituição – é o caso das prostitutas toxicodependentes. Prostituem-se para conseguir dinheiro para a compra de droga; a necessidade de consumir sobrepõe-se ao uso negligente do próprio corpo. Embora sejam em menor número, há também mulheres vítimas de redes de tráfico de mulheres.
Por último, encontram-se as mulheres etodeterminadas, ou seja, aquelas que permanecem no meio por hábito. Reiteram esta actividade porque não conhecem outra forma de estar na vida.
Embora saiba que os motivos pelos quais as mulheres iniciam a actividade prostitucional dissentem, não consigo descartar a possibilidade de existir, explícita ou implicitamente, um agente externo coactivo comum a todas. As mulheres consideradas autodeterminadas, prostituem-se por motivos económicos. Não serão as dificuldades económicas factores condicionantes da sua decisão?
Assentindo esta possibilidade, onde reside a autonomia ou livre-arbítrio da prostituta?
Acredito vivamente que a prostituição, velada ou de rua, resulta de uma insuficiência das estruturas social e económica, pelo que não consigo corroborar a possibilidade de uma mulher tomar esta decisão livremente. A não existência de um proxeneta ou de uma rede de tráfico não significa que a mulher não seja coagida. Há outros aspectos (implícitos) como estrutura familiar e condições económicas, que catapultam a mulher para a prostituição.
A decisão arbitrária é, puramente, uma ilusão!
Anabela Santos
Lisbon Lover: Acompanhante da Mudança
“Nós vivemos na idade média, somos esmagadoramente pequeninos e provincianos.”

C.F tem 36 anos é de Lisboa, tem uma licenciatura e duas profissões uma a tempo inteiro relacionada com o Ambiente, e ainda é fotógrafo freelancer.
Assume-se como acompanhante desde do mês de Junho de 2005 como “Lisbon Lover” e reivindica a diferença entre acompanhante e prostituto. Afirma que pratica esta actividade por prazer e não por necessidade financeira, sendo para ele um pequeno extra.
Sylvie: Como ocorreu a escolha desta actividade?
C.F: Ocorreu-me porque adoro Sexo e especialmente se tem a adrenalina de uma aventura entre quase estranhos, que se soltam mais do que com conhecidos. Adoro o Sexo em si, em todas as suas vertentes e nuances e porque me apercebi que, para ter aventuras sexuais, sem qualquer compromisso e sem passar pela longa fase de travar conhecimento e ganhar confiança (pelo menos das minhas experiências anteriores em conhecimentos mais liberais pela Internet em Portugal), da minha experiência, a única forma de assegurar muitas e desenraizadas aventuras seria esta.Sylvie: Os teus amigos ou familiares conhecem a tua actividade?
C.F: Apenas três amigos de muita confiança e duas amigas nas mesmas condições.Sylvie: Definiste-te como acompanhante, o que significa isso para ti?
C.F: Significa que, para além do simples acto sexual final, procuro cultivar e assegurar toda uma série de detalhes, ou digamos antes, um contexto: de cumplicidade, conversa, forma de estar e ambiente de sedução, que podem culminar, após criativos preliminares, no acto verdadeiramente sexual… Pelo menos faço por isso.Sylvie: Quais são os benefícios desta actividade? É rentável?
C.F: Não, não é rentável, porque tenho clientes esporadicamente. Apenas cobro porque é a única forma de uma Mulher Portuguesa, pelo menos é o que concluo da minha experiência de vida relativamente rica, encarar e aceder a uma aventura sexual sem compromissos emocionais, antes e depois.Sylvie: Por quanto tempo pensas manter esta actividade?
C.F: Indefinidamente, nunca penso nisso, se um dia me der na cabeça, por qualquer razão que seja, como não é uma necessidade, paro. Mas por agora estou a adorar e nunca tive problemas com ninguém, antes pelo contrário, existindo clientes que se foram tornando relativamente regulares.Sylvie: Qual é o perfil das tuas clientes, por isso entendo idade, estrato social?
C.F: Há de todos os tipos, mas se a ideia é generalizar, são claramente dominantes as idades entre os 30 e os 45 e o extracto socio-económico médio-alto. No entanto, o facto de eu poder aceitar ou recusar clientes, querendo ver primeiro as suas fotos e até tomar antes um café, pode inibir clientes com idades mais elevadas, que normalmente recorrem aos acompanhantes em geral (menos exigentes) e eventualmente temerão uma recusa da minha parte, por se sentirem inseguras em relação ao rácio idade-aspecto.Sylvie: O que pensas que elas procuram?
C.F: O que não encontram em casa, raramente uma Mulher separa o sexo, e aqui entenda-se o sexo em todas as suas dimensões (olhar, tocar, confessar, seduzir, fazer amor) do aspecto emocional. A procura de um acompanhante envolve sempre o criar de uma certa confiança e principalmente cumplicidade. É a aventura da sedução e da conquista, uma vez que não há uma abordagem na rua e se vai meia hora para uma pensão. Antes, conversa-se, provoca-se, seduz-se, avança-se e libertamo-nos, realizando, sem receios de julgamentos pelo círculo social habitual, todas as fantasias que se guardam e refreiam normalmente. É como viver um filme, completamente diferente do habitual, embora apenas por uma tarde ou noite, é serem Mulheres desejadas e contempladas com Prazer e Agrado, salvaguardando a parte posterior de relação, ciúmes, compromissos, julgamento por terceiros, etc. é como uma pequena vida dupla secreta.Sylvie: Qual a diferença para ti entre acompanhante e prostituto?
C.F: O Acompanhante recria um ambiente e age num contexto de sedução, cumplicidade e prazer mais genuínos, sem pressas nem horários estritamente definidos. No meu caso, acrescente-se o facto de eu me reservar sempre o direito a aceder ou não à cliente em questão. O prostituto satisfaz uma necessidade física momentânea, estando mais preocupado em receber o seu sem exceder o timming disponibilizado, nunca se dando ao luxo de escolher a cliente, podendo mesmo fazer enormes fretes.Sylvie: Consideras que acompanhante pode ser considerado uma profissão?
C.F: Claro. Tudo o que se realiza para obter dinheiro numa base regular e num período preponderante da duração de um dia, com objectivos, método, regras, organização, avaliação, reajustamento, etc., é considerado uma profissão, especialmente porque se realiza uma transacção mútua de bens e/ou serviços, com acordo e vontade de ambas as partes envolvidas.Sylvie: Aprovas a legalização da prostituição? Porquê?
C.F: Claro, em primeiro lugar porque do ponto de vista da restante sociedade e dos cliente, nada lhes é imposto, só recorre à prostituição quem o deseja. Em segundo lugar, a prostituição legalizada iria reforçar o facto de as/os prostitutos a realizarem em muito melhores condições de segurança e saúde (para eles/as e os/as clientes), evitando progressivamente situações de exploração pelo proxenetismo ou o drama da satisfação do vício da droga.
Sylvie: Como pensas que o tema é tratado em Portugal? Achas que existe muito preconceito?
C.F: Nós vivemos na idade média, somos esmagadoramente pequeninos e provincianos. Se noutros assuntos menos polémicos já o demonstramos claramente, o que fará no que envolve Sexo. Em suma, não há seriedade nem uma reflexão com frontalidade e maturidade sobre o assunto.
Sylvie Oliveira

Paula Lee deixou o Brasil aos 21 anos e estabeleceu-se em Portugal, começando uma actividade para a qual jamais estava preparada. Enveredou pela prostituição porque ambicionava uma vida melhor. “Não queria ser multimilionária, mas adquirir uma vida estável financeiramente”, justifica. A sua família não tem conhecimento da sua actividade; protege-a já que “seria um desgosto para eles”. Começou a trabalhar em boîtes, percorrendo o nosso país de norte a sul. Actualmente, trabalha num apartamento e, ocasionalmente, faz viagens a outras cidades, atendendo em hotéis, motéis e residências. Em entrevista ao ‘O Mal da Indiferença’, via mail, Paula não considera a legalização da prostituição uma solução feliz, pois não vê “reais benefícios para a garota de programa, mas apenas para o chulo”.De que forma se iniciou na prostituição?
Paula Lee: Não fui eu que procurei pela prostituição. A oportunidade me apareceu. Trabalhava no sexfone e uma amiga ligou para um anúncio no jornal que dizia precisar de meninas para trabalhar em casas de massagens. Ela demitiu-se do sexfone e foi. Vendo que eu ainda estava no sexfone, onde ganhava um ordenado muito baixo, perguntou se eu gostaria de ir. Apesar dos seus atendimentos serem na zona nobre do Rio de Janeiro – zona esta que a minha família não frequenta – fiquei com receio de que descobrissem, e não aceitei. Perdi contacto com ela durante uns bons meses. Eu já estava na multinacional. Algum tempo depois ela me liga, dizendo que tinha sumido porque esteve na Espanha três meses em trabalho. Me disse que tinha uns contactos para vir para Portugal. Fiquei curiosa e fui conhecer os seus contactos.
Quando chegou a Portugal, começou a actividade onde? Onde ficou alojada? Como entrou no meio?
Os meus contactos no Brasil eram intermediários de uma casa de prostituição no Norte, para onde eu vim directo. Nunca refiro qual é a cidade por causa do perigo que posso correr (há muita máfia), visto que a cidade era pequena e a metade dos puteiros da cidade pertenciam aos mesmos donos para quem eu trabalhava.Eram eles que tratavam do alojamento. Havia um prédio mesmo muito perto dessa boîte. Era onde dormíamos e era para onde levávamos os clientes quando acabavam de pagar o “programa” no caixa.
A minha amiga do sexfone é que tinha me indicado os contactos, no Rio de Janeiro. Me levaram ao aeroporto. O esquema era ir para Madrid, com uma passagem de coligação no dia seguinte, com reserva de hotel. Como se eu fosse dormir no hotel em Madrid e no dia seguinte fosse pegar o voo para Lisboa. Mas na verdade, quando eu chegasse no aeroporto de Madrid teria uma pessoa da boîte a me esperar para me trazer de carro para Portugal.
Depois de longas horas de voo e mais longas horas de carro, cheguei no puteiro achando que ia dormir, mas logo me informaram que eu ia começar no mesmo dia e que tinha meia hora para me aprontar e descer para a boîte.
Devia convidá-lo (o cliente), informando o preço. Ele pagava no caixa e subiria para o apartamento comigo. O tempo era de meia hora e eu não podia me atrasar com o cliente. Dos 30 euros do preço do programa, cinco eram para a boîte e 25 meus. Entretanto, me informaram que eu tinha que pagar a passagem, e só depois que o fizesse que poderia receber diariamente. Algum tempo depois descubro que o valor que me cobrariam pela passagem não seria aquele do bilhete, mas um outro muito maior, porque incluíam uma “taxa de exploração”, digamos assim. Quando conseguia levar um homem para o quarto, quase me arrependia, porque não sabia o que fazer com ele. Além de não saber trabalhar, tinha a preocupação do preço exorbitante da passagem. Ninguém ajudava nada, nem explicava muita coisa. Garota nova era sinónimo de concorrência. Ali dentro tinha conseguido um contacto de um outro puteiro – eu uso muito essa palavra, mas quer dizer “boîte” – que pagava melhor, onde o preço do programa era 75 euros. Foi assim que eu fui me mudando, com a mala nas costas, de puteiro para puteiro, nunca sem ter um lar que pudesse chamar de meu. Só algum tempo depois resolvi trabalhar como independente e aluguei um apartamento. Tinha saudade de ter uma vida mais parecida com uma vida normal.
Tem alguma actividade profissional para além do exercício da prostituição?
Sim, tenho, e uma delas eu exerço em part-time. É uma actividade que gosto, mas que, se exercida a tempo inteiro, mal pagaria a renda do meu apartamento.
Que tipo de clientes solicita os seus serviços?
É um grupo muito diversificado. Tem quase de tudo. O meu cliente principal é o carente, o tímido. Vem à procura de carinho e de conhecimento. São muitos os que sentem que não são bons na cama, que não conseguem satisfazer uma mulher, e me procuram querendo aprender algo mais. Há aqueles que me procuram porque é mais fácil procurar uma garota de programa do que tentar “engatar” uma mulher “comum” numa discoteca por exemplo. Tenho também os clientes que vêm só para fugir da rotina. Como se fosse uma espécie de válvula de escape, algo que só pertence a eles. Há aqueles que querem relaxar do stress do quotidiano, e que são os que frequentemente me pedem uma massagem (também tenho formação nisso.). Há aqueles que, por exemplo, teriam receio de pedir para a mulher para, por exemplo, enfiar-lhes um vibrador no ânus. Às vezes porque sentem vergonha delas, e às vezes não é nem por isso. Quanto ao estatuto social, são dos mais variados. Desde o mais simples ao mais sofisticado, desde o mais rico ao mais pobre. Nem sempre é o rico que vai ser maior garantia. Às vezes é aquele mais simples que te dá mais lucro durante o ano. Porque, enquanto o mais rico é capaz de solicitar os seus serviços uma vez por mês, o mais pobre chega a solicitá-lo pelo menos uma vez por semana. Ricos ou pobres, bonitos ou feios, velhos ou novos, eu atendo da mesma maneira. Só sou diferente pelo facto de serem diferentes, seres humanos diferentes, que exigem portanto uma atenção diferenciada de todos os outros. Entretanto constato que, quanto menores são os preços que praticamos, pior é o tipo de clientela. Dou prioridade em primeiro lugar para os clientes conhecidos. Em segundo lugar para os clientes que solicitam tempos superiores a uma hora. Tenho que sublinhar também que os clientes de boîte são muito diferentes dos clientes de apartamentos.
Em Portugal, quanto aufere uma prostituta como você, mensalmente? É uma quantia suficientemente aliciante para incentivar outras mulheres?
Depende. Isso depende sempre de muitos factores. Eu, por exemplo, não vivo apenas da prostituição. Tenho um trabalho em part-time e estudo. Uma garota ganha bem de acordo com vários factores. O primeiro deles é o tipo de atendimento que ela realiza e qual a sua especialidade. Depois varia também de acordo com os tipos de clientes que tem, do local onde trabalha, da cidade, se trabalha independente ou “por conta de outrem” (risos). E não é todo dia que uma garota acorda bem-disposta para fazer sexo com desconhecidos. Há quem aguente fazer cinco programas, há quem aguente fazer 40. Quando trabalhávamos em boîtes, dávamos entre cinco a 25 por cento de comissão do programa para o dono. Enquanto hoje, em apartamentos, o comum é dar 50 por cento e ainda pagar uma diária que varia entre dez a 30. Mesmo como independente, nunca tenho uma quantia fixa por mês. Não gosto de falar de valores, justamente para não ser responsável – directa ou indirectamente – para que alguém entre na prostituição – ou pense explorar esse mercado enquanto chulo – em função dos valores. Porque este não é o único prato que se deve colocar na balança antes de tomar a decisão.
Qual é a reacção da sociedade portuguesa face ao fenómeno da prostituição?
Nunca gosto de generalizar. Não posso definir como um todo, porque afinal eu recebo muitos e-mails diariamente, e as pessoas – homens e mulheres – têm se mostrado com as mentes muito abertas e livres de preconceitos, rótulos, estereótipos. Entretanto, algumas coisas que acontecem em Portugal – e como possivelmente devem acontecer em várias partes do mundo – são completamente ridículas. Um exemplo disso é o caso das mães de Bragança, o qual estou sempre a pesquisar. Afinal, não viemos para tomar marido de ninguém. Apenas estamos no nosso espaço, a trabalhar. Não vamos atrás deles, são eles que vêm atrás de nós e, quando vêm, não é frequentemente para nos pedirem em casamento, mas para um momento instantâneo. Também não viemos para cá porque era o nosso sonho. A maior parte das meninas que conheço não o fizeram tão espontaneamente. Não compraram uma passagem de avião e decidiram vir se prostituir em Portugal. Se cá estão, é porque a maioria veio através de um intermediário daqui, que de certa forma as aliciou. Em Portugal, quando se fala em prostituição, a primeira coisa que se pensa é o quê? Sim, brasileiras. Alguns ainda dizem: «Essas putas vieram para estragar o nosso país!». Esse conceito é completamente errado, porque quando vejo tal coisa, logo pensa-se que em Portugal também não há prostitutas portuguesas. A prostituta-imigrante aqui não é tão bem tratada, apesar do fascínio que já pela mulher brasileira desde os tempos que a Sónia Braga invadiu as telas lusitanas mostrando a Gabriela. Se estão ilegais, ninguém quer saber se foi usada e dos horrores que teve que passar para ter ficado aqui mais que o permitido como turista. A culpa de tudo é sempre dela. Quanto a visão da sociedade, e mais uma vez repito que não é só a portuguesa, há uma grande hipocrisia e troca de valores. A “prostituta” só é negligenciada porque ela faz algo de forma escancarada. As pessoas preferem gostar mais de uma mentira bem guardada do que de uma verdade exposta.
Considera que a regulamentação da prática da prostituição beneficiaria as pessoas que se prostituem?
Por enquanto ainda não tenho uma opinião formada sobre o assunto, e por isso pode ser que um dia eu mude de ideia. Por enquanto, a minha opinião não é favorável à legalização da prostituição. Por quê? Porque sempre que vejo tanta propaganda a esse respeito estampada nos jornais, não vejo reais benefícios para a garota de programa, mas apenas para o chulo. O que dá a entender é que a garota de programa terá mais deveres do que direitos. Muito se fala que a regulamentação da prostituição vai ajudar no combate às doenças sexualmente transmissíveis, principalmente no caso da SIDA. Isto para mim não passa de fachada. Se o cliente não quer pegar SIDA, muito menos o quer a garota de programa, que depende dessa actividade como sua fonte de renda. Já ouvi comentários de pessoas que diziam que muitas garotas de programa não faziam os exames por estarem ilegais. E quem disse que é preciso de estar legal para fazer exame de sangue? É claro que ela vai pagar mais por não estar colectada, mas sempre há essa opção de fazer o exame particular. Além disso, sempre teremos um cliente médico ou que trabalhe em laboratório que possa facilitar tudo caso existisse algum problema. A regularização da prostituição não garante que vai deixar de haver contaminação. Mas e a inspecção sanitária? Onde há dinheiro há corrupção, eu não confiaria muito nisso. A regularização da prostituição faria com que abrissem novos bordéis. Chegariam cada vez mais e mais meninas. As independentes iriam ter que optar por trabalhar nesses bordéis de vez em quando, porque seriam os poucos os clientes que optariam por ir num apartamento onde estão uma, duas ou três se podem ir numa casa nocturna onde estão mais 30 ou cem à sua escolha como carne de talho. Além de sermos chuladas pelos donos das casas, também seríamos chuladas pelo Governo. Para me tornar ainda mais um produto, só faltava mesmo um código de barras. Tal regulamentação pensaria em primeiro lugar na garota de programa ou nos cofres públicos? Toda a estrutura mudaria em função disso? Ou seja, se eu fosse fazer um seguro de acidentes no trabalho, eu poderia pedir para colocar uma cláusula relativa aos acidentes enquanto trepo com o cliente? Haveria também sempre aquele lugar em que «É cem euros com recibo, mas se for sem é 80…». Ainda não vejo tantas vantagens para mim enquanto dona do meu corpo.
Aconselharia um familiar ou uma amiga a prostituir-se?
Nunca, jamais. Hoje eu tenho um certo conforto e garanto também um certo conforto para as pessoas que amo. Não quero que as pessoas que amo tenham que carregar o mesmo peso.
Como define a prostituição?
É algo que só existe porque existem clientes. A lei da oferta, que só existe se há procura. Muito se preocupa com a prostituição, mas ninguém quer ver o motivo de existirem os clientes, que são na verdade os que mantém o “negócio”. Por que procuram? De que necessitam? O que lhes faz falta? É claro que a mulher só decidiu se prostituir porque viu que o seu corpo e o prazer que proporcionaria era algo que poderia negociar. Por que é tão visível que é maior o número de mulheres que se prostituem do que de homens? Serão eles mais carentes que as mulheres? Gostam mais de sexo? Ou a sociedade machista determina que assim seja? Apesar de toda a repressão e preconceito, a prostituta continua sendo procurada pelos homens. Será por ser o fruto proibido? Mas em Janeiro de 1983 a prostituição deixou de ser proibida em Portugal.
Quando se prostitui, transforma-se numa outra pessoa ou continua a ser você mesma?
A Paula e a Paula Lee são pessoas muito diferentes, que têm vidas paralelas, mas que se complementam. Calculo que, quando me prostituo, sou 50 por cento eu e 50 por cento Paula Lee.
Anabela Santos

Miriam Blasco é uma jovem espanhola que encontrou na prostituição uma forma rápida de ganhar dinheiro. Conheceu o mercado de “serviços sexuais” aos 19 anos, por intermédio de uma senhora (ex-prostituta) que lhe prometeu conseguir bons clientes. Inicialmente, conciliava a sua actividade com os estudos universitários. Actualmente, com 25 anos, partilha o apartamento com um travesti, Lia. Em entrevista ao ‘O Mal da Indiferença’, via mail, Miriam não tem preconceitos, assume-se e não tolera a ausência de direitos laborais das prostitutas no seu país, Espanha.Que factores contribuíram para a sua entrada na prostituição?
Miriam Blasco: Geralmente, em todos os trabalhos ganha-se pouco dinheiro, sobretudo ao acabar os estudos. A ideia que tenho é ganhar rapidamente dinheiro que me faz falta para construir uma casa num lugar que escolhi e montar uma empresa.
A sua família e amigos têm conhecimento da tua actividade?
Os meus amigos de antes não. Posteriormente fiz amigos nesta profissão que sabem o que sou. A minha família não sabe que me dedico a isto.Em Espanha, quanto aufere uma prostituta, mensalmente? É uma quantia suficientemente aliciante para incentivar outras mulheres?
Geralmente, obtenho uma média de quatro mil euros. Há meses em que o melhor que consigo ganhar é seis ou sete mil, mas em outros meses não passo de mil e quinhentos ou dois mil. Tudo depende da situação social. Por exemplo, Setembro é um mês muito mau, começa o colégio das crianças e isso repercute-se nos pais e na sua economia.
Estabelece algum tipo de relação com o cliente para além da profissional?
Procuro não fazê-lo, mas há clientes que, pela sua assiduidade, se poderiam considerar amigos; digamos que cada um sabe em que lugar se encontra. Ele sabe porque me solicita e eu sei que em certas coisas posso pedir-lhe algum favor pontual se necessitar da sua ajuda. Contudo, isto ocorre com poucos clientes fixos. É similar a relação que podes estabelecer tu mesma com o dono do café debaixo da tua casa. Sabes que, num determinado dia, pode fazer-te um favor ou o contrário, mas tu sabes que se tomas um café deves pagá-lo.
Qual é a reacção da sociedade espanhola em relação ao fenómeno da prostituição?
A sociedade espanhola, assim como todas as outras da Europa (Portugal também), é hipócrita neste sentido. Sabem que existem a prostituição, permitem-na ou não se metem com ela, mas não existimos em nenhum sentido. Não pagamos impostos, não temos direito a assistência médica ou social. É injusto. Penso que deveríamos ter as obrigações que os restantes cidadãos e os seus direitos. Por outro lado, quando as autoridades decidem abordar o tema da prostituição é para reprimir, da maneira mais absurda (actualmente em Madrid ou Catalunha), obviando que a prostituição prevalece no mundo desde sempre. A Suécia acredita que, ao penalizar os consumidores de sexo pago com multas, poderá acabar com a prostituição; os seus políticos dizem-no claramente. Na Suécia, prostituem-se raparigas de 15 anos, simplesmente para que alguém lhes pague umas calças de ganga, um jersey ou qualquer outro capricho.A hipocrisia da sociedade verifica-se ainda mais nos meios de comunicação, estes limitam-se a salientar o lado mau nas suas notícias, a sensação de que todas nós estamos dependentes de drogas, do uso de armas ou do proxenetismo. Divulgam dados deliberadamente falsos (sobre isto, há um comentário no meu blogue) sobre diversos aspectos e um conjunto de barbaridades que fazem com que a prostituição seja vista como algo muito próximo do crime. Por último, as feministas que usam a prostituição para promover as suas teses e denominar-nos de mulheres escravizadas, de mulheres objecto e um conjunto de disparates. Eu conheço imensas mulheres dedicadas a isto, nenhuma das que conheci era escravizada, optaram por esta profissão por mil razões, a principal é ganhar dinheiro rápido e em quantidade suficiente. Para muitas de nós, a escravizada é a que trabalha desde manhã à noite, limpando casas por trezentos euros por mês. Não me considero nem ouço ninguém dizer que se sente uma mulher objecto, os homens é que são os objectos para nós. Neste mundo, o que vale é o dinheiro, o resto é disparates e nós se o sacamos dos homens, quem é o objecto? As feministas fomentam mais do que ninguém essa hipocrisia, esse querer ver outro lado e esse âmbito mafioso que rodeia a prostituição.
As prostitutas com as quais contacta entram na prostituição por imposição de outrem ou por escolha própria?
Todas as raparigas que conheço entraram por escolha própria e, entre elas, há factores de todo o tipo. A má situação de muitos países africanos e sul-americanos força-as a procurar uma solução rápida para ganhar dinheiro, com o qual podem iniciar a sua própria empresa ou algo semelhante no seu país. Outras, devido ao seu baixo nível de instrução, só podem optar por empregos mal remunerados. Um número reduzido (é o meu caso), por ganhar um dinheiro mais ou menos rápido que nos permita satisfazer e levar o resto da vida com uma normalidade mais ou menos relativa, sem preocupações de hipotecas ou outras circunstâncias, evidentemente procurando num futuro próximo criar algo que nos proporcione sustento mas sem as preocupações anteriormente mencionadas. Há as que vão por puro vício (poucas também). Não digo que não haja mulheres exploradas, mas são em menor número. Nunca conheci nenhuma e dos casos que a imprensa divulga duvido muitíssimo.
Considera que a regulamentação da prática da prostituição beneficiaria as pessoas que se prostituem?
Evidentemente que nos beneficiaria, porque nos daria a oportunidade de pagar os nossos impostos, ter direito a assistência social. Só, por isso, já nos beneficiaria, para além de permitir a redução de máfias de proxenetas, uso de armas, etc.
O que mais receia que lhe possa acontecer no mundo da prostituição?
Às vezes, tenho medo de alguns homens, da Sida. Normalmente, sinto-me segura, mas sempre há um risco. Creio que ocorre em todas as profissões.
Aconselharia um familiar ou amigo a prostituir-se?
Sim. Isto acontece com frequência, sobretudo com as raparigas estrangeiras. Por vezes, vem uma e traz as suas irmãs, primas, amigas, etc.É importante esclarecer que o recomendaria dependendo da pessoa. Para se dedicar a isto não se pode ter demasiados escrúpulos (de qualquer tipo, morais, étnicos, sanitários, …), nem ser uma pessoa vulnerável, há que ter um certo carácter, etc. Não é adequado a todo o tipo de raparigas.
Entre as prostitutas, há uma perspectiva de trabalho, isto é, pretendem ascender dentro do ramo?
Não, não existe nada assim. Uma prostituta pode cobrar mais ou menos, segundo a sua raça, educação ou saber estar, mas daí não passa. O ideal para todas é retirar-se jovem para outra profissão. Às vezes, não se pode por mil razões. Então, pode-se encontrar antigas prostitutas transformadas em proprietárias de algum clube ou apartamento (a estas, chamamo-las de mami em Espanha) de algum clube ou algo semelhante, mas não mais.
Anabela Santos
A venda e compra do corpo humano são actividades prevalecentes nas sociedades e os seus actores são, sobejamente, conhecidos. Homens e mulheres, para não falar em crianças, encarnam o papel das suas vidas: o de “vendedores de ilusões” . Outros e outras, pelas mais variadas razões, investem num corpo que lhes dá prazer, (des)conhecendo que estão a vivificar uma forma de violência deveras execrável.
Perante uma prática periférica/situada à margem da sociedade, como reagimos à sua prevalência?
As manifestações atitudinais mais evidentes do corpo societal, de todos nós, são o escárnio, repulsa e indiferença, factores que retardam a sua circunscrição e terminante erradicação.
Agora, coloco uma questão que me parece, particularmente, pertinente: regulamentar a prostituição é a fórmula-chave de conseguir a sua erradicação?
Anabela Santos

Como defines a Prostituição feminina?

«Adriana, 19 anos»
Defino como uma forma de sobrevivência no início e como um ciclo-vicioso no desenrolar da profissão, se é que se pode designar como profissão.
«Luís, 24 anos»
Sendo a profissão mais antiga do mundo, apoio totalmente a sua legalização.
A prostituição feminina é compreensível, no meu ponto de vista, dependendo do contexto em que a prostituta se insere. É uma forma rápida e fácil de fazer dinheiro, e no mundo capitalista que encontramos hoje em dia, temos de compreender este fenómeno.
«Eva, 20 anos»
Para mim, é o uso do corpo como instrumento de trabalho, é algo delicado e, por vezes, incompreendido pelas pessoas. É algo pouco sensibilizador e, por vezes, promíscuo para a grande parte da população.
«Sofia, 21 anos»
Mulheres que vendem o corpo para dar prazer a um homem/mulher.

Qual é a imagem que tens da prostituta?

«Adriana, 19 anos»
Acima de tudo, é um ser humano e fez a sua opção de vida, seja por prazer, seja para sobreviver. Portanto, não pode nem deve haver qualquer tipo de discriminação.
«Luís, 24 anos»
Não tenho nada contra as prostitutas, até porque muitas delas acabam por se tornar úteis, de uma certa forma. Muitos homens encontram nas prostitutas aquilo que não encontram em lado nenhum.
«Eva, 20 anos»
Eu não concordo nem discordo com a prostituição.
Acho que é uma opção pessoal que deve caber a cada prostituta tomar.
Acredito que muitas prostitutas o fazem por necessidade, tornando-se, com o tempo, um hábito fácil de conseguir dinheiro.
Pode-se distinguir a prostituta de rua das outras, sendo esta uma prostituta com quase nenhuma ou mesmo nenhuma higiene pessoal. Para mim, a prostituta de rua é degradante.
«Sofia, 21 anos»
Uma imagem má. É um estado de decadência a que a mulher, por imposição ou escolha, chega.
Concordas com a sua legalização?

«Adriana, 19 anos»
Não, não concordo.
«Luís, 24 anos»
Sim, concordo.
«Eva, 20 anos»
Concordo, pois não deixa de ser uma opção e uma liberdade que cada qual tem direito.
«Sofia, 21 anos»
Não tenho ainda uma opinião formada.