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Category Archives: Publicidade e Mulher

A Federação de Mulheres Progressistas (FMP), organização espanhola de defesa dos direitos femininos, está a promover a campanha És cúmplice? Diz não aos anúncios de exploração sexual”, que consiste na recolha de assinaturas on-line com o objectivo de pressionar os jornais espanhóis a banir das suas páginas os anúncios de publicitação de serviços sexuais.
A campanha surge em consonância com uma das advertências apresentadas pela Comissão Mista dos Direitos das Mulheres e da Igualdade de Oportunidades ao Governo espanhol, em Maio. Entre as recomendações, a Comissão solicita aos media que “os seus códigos deontológicos se baseiem na renúncia à publicidade relacionada com o comércio sexual para impedir o negócio das organizações mafiosas dedicadas ao comércio sexual”.
Subjacentemente à publicitação de serviços sexuais, pode existir uma estrutura sofisticada que opera no sentido de obter avultados lucros a expensas da exploração sexual da mulher. A Espanha constitui um importante pólo de trânsito e recepção de mulheres vítimas de tráfico e a os espaços disponíveis para anúncios na imprensa alarga, indubitavelmente, o campo de actuação das máfias, favorecendo a impunidade das suas acções e minimizando os seus riscos.
“És cúmplice?”
Se não, assina AQUI!
Anabela Santos
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A imagem da mulher projectada pela indústria da publicidade é fundamente deambulatória: ora a representa como um ser passivo e submisso, ora como um magistral símbolo sexual.
Por um lado, tende a rotulá-la como a “fadinha do lar”, ou seja, o elemento do agregado familiar a quem incumbe, por natureza, a organização da esfera doméstica. Os slogans tradicionais e sexistas sucedem-se nos spots televisivos e nos outdoors; as mensagens publicitárias de detergentes ou de produtos alimentares parecem ser de interesse exclusivo da mulher. Vejamos alguns exemplos lamentáveis:
“O sorriso de nove em cada dez mulheres brilha, graças à acção do novo Calgonit Quantum”

Quando a mulher aparece nos spots publicitários deste tipo de produto – detergentes –, é uma mera coadjuvante do protagonista homem ou presença passiva. Pensemos, por exemplo, na publicidade do detergente “Xau”. Aparece um indivíduo a pôr à prova a eficácia do produto perante uma plateia inteiramente feminina. Qual a razão deste papel passivo da mulher? Porque é que não há homens na assistência?

E já repararam no spot da marca “Air Wick”? Aparece uma simpática macaca a assegurar que este produto lhe permite manter a sua casa perfumada. Por que razão uma macaca e não um macaco? Oh, perdoem-me o disparate! É evidente que as tarefas domésticas são para o sexo feminino, seja qual for a espécie.

Para além do papel de mulher submissa e de “fada do lar”, a publicidade veicula ainda uma outra imagem: a mulher como símbolo sexual. Raros são os spots nos quais não surgem mulheres nuas ou coisificadas! Quando a imaginação e o talento escasseiam nos criativos, coloca-se uma mulher nua em posições voluptuosas e, pronto, está feito!

O Código de Publicidade português “condena qualquer forma de discriminação em relação à raça, língua, território, religião, sexo”, mas a realidade é bem diferente. Há o risco iminente da absorção da publicidade pelo sexismo e da sua transformação em “pornografia chique”.

O relatório de uma socialista turca, Gulsun Bilgehan, aprovado pela assembleia parlamentar do Conselho da Europa, chama a atenção para a perigosidade da publicidade efectuada na actualidade: “os jovens são muito influenciados pelos ‘spots’ publicitários e, em geral, a publicidade difunde uma imagem desfocada da realidade, em especial da realidade das mulheres”. A deputada sugere a criação de um número verde ou de um mail para que cada cidadão tenha a possibilidade de denunciar os anúncios que atentem contra a imagem da mulher.

É uma solução a pensar, mas será que as pessoas estão sensibilizadas para esta questão?
Vão participar criticamente? Será mais uma tentativa frustrada na luta contra o sexismo?

Anabela Santos

A “Capital Moral da Europa” nomeadamente Madrid veio acusar os publicistas, neste anúncio, de suscitar uma deformação da boa moral ou da boa consciência na transmissão da mensagem. Analogicamente, equiparam a mesma, na sua forma mais agravada, à simulação de um acto de violação.
No meu ponto de vista, a imagem publicitária é, na sua maioria, o reflexo de uma cultura, de um conjunto de valores, de regras, de formas de estar e de pensar que caracterizam a nossa Sociedade. Neste sentido, caracterizo-a, em primeira instância, pela subjugação, pela submissão contínua, pela desigualdade levada ao extremo, pela diferenciação na construção mental da concepção de género. Deste modo, a publicidade espelha, em muitos casos, o que a Sociedade não consegue observar, como é o caso apresentado, pelas mesmas razões de sempre: conformismo nos termos de género.
Na realidade, quando há, mesmo que simbolicamente, duas mãos masculinas (uso da força física) e olhares claramente direccionados para o mesmo sentido humano (neste caso, a mulher) é de todo erróneo não pensarmos que há um acto de simulação representando a agressão, o golpe masculino e consequentemente a mágoa feminina.
Há que repensar o código da “estelização da estética” ( uso da mulher na pubilicidade: a última deve respeitar a dignidade da mulher e não chocar a sensibilidade do público) se for o propósito desta publicidade representar o “belo e o estético”, adequando a realidade à intenção publicitária. Se for o caso, em nada refuto, senão for há, claramente, uma atitude de violação. Fica aqui o conselho: não caiam na trama de rolar no jogo de que é preciso ter roupa de marca, um perfume de marca [e um nome sem marca] para atrair mulheres e matá-las, mesmo que num processo de imagem lenta.
Ana Ferreira