Skip navigation

Monthly Archives: Janeiro 2008

my_voice_by_brungilda.jpg

“The gun fire around us makes it hard to hear. But the human voice is different from other sounds. It can be heard over noises that bury everything else. Even when it is not shouting. Even if it’s just a whisper. Even the lowest whisper can be heard – over armies – when it’s telling the truth”.

A fístula consiste num orifício que liga a vagina à bexiga, causado por um parto demasiadamente demorado sem intervenção médica imediata, como uma cesariana. A ausência de uma resposta médica eficiente revela corolários pungentes: a incontinência crónica da parturiente e, na maior parte dos casos, a morte do seu bebé recém-nascido.

A optimização do sistema de saúde na Europa e na América Latina provocou o seu desaparecimento nestas áreas geográficas há mais de cem anos. Contudo, constitui ainda um problema agudo no continente africano, asiático e no Médio Oriente.
O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) está a promover, desde 2003, uma campanha mundial para a eliminação da fístula que atinge, actualmente, mais de dois milhões de mulheres nos países em desenvolvimento.
Erradicação da Fístula até 2015:
A eliminação da fístula a nível mundial depende da “vontade política e de uma colaboração mais intensa entre os Governos, grupos comunitários, ONGs e profissionais da saúde” e erige-se em três fases: prevenção, tratamento e reintegração.
· Prevenção:
A erradicação da fístula passa indubitavelmente pela prevenção. Acesso a cuidados de saúde eficientes durante a gravidez, promoção de uma maternidade segura, bem como a autonomização feminina e o banimento de desigualdades sociais e económicas são passos cruciais.
· Tratamento e reintegração:
A fístula é reversível na maior parte dos casos por meio de uma simples intervenção cirúrgica, aliada à prestação de apoio afectivo, económico e social. A campanha está a investir na formação de profissionais, na modernização dos equipamentos e dos centros de tratamento.
Anabela Santos 

‘Quanto menos nos sentirmos limitados, mais qualquer limitação parece insuportável’
(Durkheim)
Em todo o mundo, os problemas sociais produzem-se e reproduzem-se, sem término. Quando transformados em problemáticas sociais, os mesmos, ganham contornos sisudos, sérios e ameaçadores. Os cenários multiplicam-se e somam-se vivências tenebrosas, enigmáticas e ocultas a todo o corpo colectivo.
Torna-se difícil abstrairmo-nos da acção colectiva contraditória que combina alguns princípios da sua identidade: sintomaticamente depressiva – leia-se psicopática e sociopática. Se no primeiro caso, as disfunções psíquicas, neuróticas e emocionais são uma consequência da destabilização relacional intra e intergrupal, no segundo caso os desvios comportamentais e os procedimentos ilimitados de foro colectivo dão corpo à ‘anomia social’, ou seja, ao desenquadramento normativo, valorativo e simbólico, dado o não ordenamento e ajustamento dos diferentes órgãos sociais, à condição de integração social. Com efeito, a condição de existência reprova todo o actor social (aquele que vive inserido numa espécie de ‘teatralização da vida quotidiana’, pelo desempenho múltiplo de um conjunto de papéis ou funções – ‘todos nós’) que se rende à crise social e ao desmoronamento do seu papel integrador na sociedade, podendo conduzi-lo a práticas comportamentais de egoísmo, suicídio, auto-mutilação ou inquietação interior, conhecida por ‘esgotamento cerebral ou depressão neurótica’.
De acordo com a Sociedade Portuguesa de Suicídiologia (SPS) suicidam-se, anualmente, cerca de 600 pessoas, em Portugal e à volta de 24000 desencadeiam pseudo-comportamentos suicidas, surgindo, neste último caso, a necessidade de atendimento médico. Afinal, ‘o que é se entende por suicídio?’. Na óptica sociológica, não é possível falar de um único tipo de suicídio, pelo que a análise, em torno deste problema público, se entende ‘multifactorial’. Diversos teóricos e analistas apontam que o suicídio pode surgir na sequência de uma oculta e exacerbada individuação, não havendo em cada um dos elementos um código normativo fixo, pelo que a autoridade moral lhes é indiferente; outros estudiosos apontam como principal causa para o suicídio o facto do indíviduo não encontrar em si mesmo qualquer tipo de limites e a sociedade não ser capaz de constituir um poder de dominação das carências individuais. No primeiro caso, falamos de ‘suicídio egoísta’, já no segundo de ‘suicídio anómico’ (Durkheim).
Por conseguinte, o risco de cada um dos indivíduos despertar em si uma ‘rebelião’ interior é cada vez mais provável, dada a complexa sintomatologia, em torno deste problema social: perturbações de humor, ansiedade, inibição, quebra no rendimento intelectual, reduzida actividade física ou intelectual e pensamentos auto-destrutivos.
Neste sentido, uma sociedade composta por um conjunto de elementos desorganizados constitui uma verdadeira ‘monstruosidade social’, devido ao predomínio de um aparelho social desactualizado e atrofiado seja na mente humana, seja em corpo social.
Ana Ferreira

O movimento Chiennes de Garde protestou na passada sexta feira contra a capa do jornal “Nouvel Observateur” que apresentava Simone de Beauvoir nua. A filósofa, que no passado dia 9 teria festejado o seu centenário, aparecia na capa sem roupa com um título sugestivo: “A escandalosa”. Para os membros da associação trata-se de um medida sexista pois tal coisa nunca foi feita a autores masculinos, na manifestação reclamavam fotos de nudez de figuras conhecidas como Sartre, Jean Daniel…Para Florence Montreynaud fundadora do movimento, “protestam contra a utilização do corpo de Simone de Beauvoir para celebrar o seu pensamento. Achamos isso sexista.”O semanário assume a escolha e recusaram dar um pedido de desculpa. Em resposta ao protesto referiam “não eram nem sexista, nem machistas e nunca queriam ter dado uma imagem de degradação da mulher, nem de Simone de Beauvoir.
O movimento Chiennes de Garde é um movimento feminista Francês contra o sexismo que as mulheres são vítimas nos médias e no espaço público em geral. A missão é de lutar contra a violência sexista e contra os estereótipos sexista e promover a igualdade. A escolha do nome para melhor prende se com o termo inglês as Watchdog. A frase delas: “ Dirigir um insulto sexista a uma mulher pública, é insultar todas as mulheres”.
É verdade infelizmente nem Simone de Beauvoir escapou. Essa foi a homenagem prestada a esta grande mulher, essa foi a imagem que se retirou de uma vida de luta pelos direitos das mulheres. Claro que não é nada sexista, todas as homenagens a escritores são feitos assim. Claro que não é nada machista, todas as homenagens aos homens são feitas com fotografias de nus. Claro que não é desrespeito, todas as homenagens a defuntos são realizada desta forma.
É mais do que sexista, é lamentável, é mais do que degradante é escandaloso, é mais do que desrespeito é intolerável.
Sylvie Oliveira

Tecnologia, destreza e vontade de agir em defesa dos Direitos Humanos. São precisamente estes componentes que subjazem à criação da HUB, uma plataforma online que disponibiliza materiais audiovisuais – vídeo, áudio e imagem – sobre um tema comum: Direitos Humanos.

Projecto da WITNESS, a HUB é um espaço acessível a qualquer pessoa, onde se pode visionar e partilhar vídeos, opinar e actuar em defesa de direitos políticos, civis, sociais, económicos e culturais. ‘Através da HUB, organizações, redes e grupos do mundo inteiro podem fazer com que as suas campanhas e histórias sobre direitos humanos despertem a atenção e o interesse a nível global’.

Para conhecer melhor a HUB, passa por AQUI!

Anabela Santos

Anabelamoreirasantos@sapo.pt

Em 1976, numa entrevista, Beauvoir dizia que as mudanças pelas quais lutara não se realizariam durante a sua vida. “Talvez daqui a quatro gerações.” Que importância tem hoje ‘O Segundo Sexo’? Cem anos depois do seu nascimento, a França ainda se comove com ela
Publicado em 1949, tinha Simone de Beauvoir 41 anos, ‘O Segundo Sexo’ viria a ser considerado uma marca fundamental no pensamento feminista do século XX, abrindo caminhos para a teorização em torno das desigualdades construídas em função das diferenças entre os sexos. Composto por dois volumes (Factos e Mitos e A experiência vivida), o livro debate a situação da mulher, do ponto de vista biológico, sociológico e psicanalítico, inaugurando problemáticas relativas às instâncias de poder na sociedade contemporânea e às diferentes formas (tantas vezes conflituais) de dominação. Reflectindo, pois, sobre as razões históricas e os mitos que fundaram a sociedade patriarcal e a sustentam e que trataram a mulher como um “segundo sexo”, silenciando-a e relegando-a para um lugar de subalternidade, Beauvoir irá apontar soluções que visam à igualdade entre os seres humanos.
Fonte de inspiração para autoras como Betty Friedan, que lhe dedicou o seu já clássico ‘The Feminine Mystique‘ (1963), ‘O Segundo Sexo’ antecipa, de forma admirável, o feminismo da chamada “segunda vaga”, que surgiria quase três décadas depois, com o movimento de libertação das mulheres a desenvolver-se, no final dos anos 60, a par de outros movimentos sociais de contestação, de carácter transnacional – as lutas pelos direitos cívicos, os movimentos estudantis, as preocupações ecossistémicas, a reivindicação, por parte das minorias, de uma voz e de um lugar que fosse seu. “A disputa durará enquanto os homens e as mulheres não se reconhecerem como semelhantes, isto é, enquanto se perpetuar a feminilidade como tal”, escrevia Beauvoir. Entendendo “feminilidade” como uma construção, a teorização de Beauvoir é levada a cabo a partir da dupla edificação deste conceito dentro do paradigma patriarcal – o “feminino” como essência e o “feminino” como código de regras comportamentais.Sexo e géneroAntecipando os movimentos feministas, Beauvoir antecipa ainda aquela que viria a ser uma das pedras de toque teóricas para os estudos feministas de raiz anglo-americana: a apropriação da palavra “género”, para significar a construção social de uma diferença orientada em função da biologia, por oposição a “sexo”, que designaria somente a componente biológica. É a partir da frase já célebre de O Segundo Sexo “On ne naît pas femme, on le devient” (“Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”), que teóricas feministas como Joan Scott irão, nos anos 80, reflectir sobre o estabelecimento da diferença entre “sexo” e género (“diferença sexual socialmente construída”), desafiando e questionando a noção de que a biologia é determinante para os papéis atribuídos às mulheres e de que existe uma “essência feminina”. Assim, dentro de um quadro conceptual feminista, a questão proposta por Beauvoir é crucial, visto denunciar o carácter eminentemente artificial da categoria “mulher”: um ser humano do sexo feminino “não nasce mulher”, antes “se torna mulher”, através da aprendizagem e repetição de gestos, posturas e expressões que lhe são transmitidos ao longo da vida. Só por isto se teria O Segundo Sexo mantido actual. Surpreendente é que novas teorias, como a teoria queer, surgida há pouco mais de uma década, emergente dos estudos feministas e devedora dos estudos gay e lésbicos, revisitem Beauvoir e a sua célebre frase. Tendo como um dos seus nomes mais marcantes Judith Butler, a teoria queer assume-se como emancipatória, ao defender que as identidades são criadas pela repetição de certos actos culturalmente inscritos no corpo. Reagindo às políticas de identidade, que haviam sido, nas décadas de 70 e 80, fulcrais para o sucesso das políticas de inclusão social, Judith Butler, e o seus Gender Trouble (1990) e Undoing Gender (2004), partem desse “On ne naît pas femme, on le devient”, de Beauvoir, para acentuar a ideia de que a identidade é fluida e instável e de que “género” é um conjunto de actos performativos. Neste caso, em lugar de se ler “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”, poderia ler-se “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, ou seja, todos e todas nós aprendemos a construir identidades a partir de modelos aparentemente matriciais, que se foram depois cristalizando, mas que são, eles próprios, simulacros. A ênfase é, pois, colocada na transformação – que, podendo ser limitação, pode igualmente expandir-se para gesto de liberdade.Em 1976, numa entrevista, Simone de Beauvoir dizia que as mudanças pelas quais lutara não se realizariam durante a sua vida. “Talvez daqui a quatro gerações”, acrescentava. Para esta jovem teoria, a lição de Beauvoir coloca-se também num “devir”, esse devenir de que, há quase 50 anos, ela falava. Jovem, outra vez, neste ano que celebra o centenário do seu nascimento.
Ana Luísa Amaral
Escritora, e professora de Literatura Anglo-Americana e de Estudos Feministas na Faculdade de Letras do Porto
Quando ouvimos falar em violência, fazemos, na maioria das vezes, correlação com o tipo de violência física e psíquica e raramente nos ocorre a agressão de cariz emocional, embora muitos de nós estejamos sujeitos à mencionada, ainda que de uma forma inconsciente. Mas, afinal, ‘O que é a violência emocional?’ – eis a questão de partida.

É sabido que nas relações amorosas, a probabilidade de ocorrência de qualquer tipo de violência é mais elevada que em outra espécie de relacionamento. Assim, a agressão emocional descreve-se pelas frequentes situações de rejeição, humilhação, manipulação, depreciação, discriminação, exclusão e sanção da vítima de ‘violência intrafamiliar’. Embora, este tipo de agressão não deixe marcas visíveis de agressão no corpo, carimba, indubitavelmente, a psiqué humana da vítima.
O agressor tenta, comummente, desencadear modos de acção desequilibrados, embora de uma forma ‘camuflada’ para criar um estado de satisfação, delicadeza e carinho consigo mesmo, movendo os elementos que o rodeiam em seu auxílio, ao mostrar indícios de qualquer tipo de doença que o esteja ou não a afectar ou problema semelhante, exigindo, dos outros, tolerância, respeito e um procedimento peculiar na forma como é abordado.
Para além disso, muitos agressores manipulam, emocionalmente, os agentes sociais que com ele estabelecem relações, fazendo com que estes o façam sentir culpado, inferiorizado, dependente e culpabilizado! Um jogo sujo, mas jamais despercebido!
Efectivamente, o agressor sente-se bem e em perfeito equilíbrio quando, na realidade, a vítima se sente discriminada, humilhada, excluída! É comum este tipo de agressão ocorrer entre pais e filhos, maridos e esposas, amigos e parentes conhecidos e não apenas, partir da mulher, em direcção a algum público a ‘abater’ como muitos estudiosos, assim, o entendem.
Por conseguinte, os comportamentos contraditórios ou aversos são habituais em agressores, ofensores e manipuladores que intencionam accionar de forma diferente que se esperava deles. De facto, os mesmos agem como se as atitudes, valores ou comportamentos das vítimas fossem insignificantes e irrelevantes.
Neste quadro tipológico, podemos, ainda, acrescentar as agressões físicas que, embora, sob a forma de ameaça e sem concretização directa, constituem violência emocional.

Ana Ferreira
A China lançou, em Dezembro, o seu primeiro Plano contra o Tráfico de mulheres e crianças. Aplicado entre 2008 e 2012, o projecto visa circunscrever o fenómeno e evitar que, anualmente, um milhão de crianças continuem a ser sequestradas para fins de exploração sexual e laboral. Durante os próximos quatro anos, as autoridades chinesas vão intensificar o combate ao tráfico ilegal no mercado de trabalho; os portos, as estações e os aeroportos serão fiscalizados; e as vítimas de tráfico terão acesso aos serviços de terapia de reabilitação.
A China é um pólo de envio, trânsito e recepção de vítimas de tráfico humano.
As mulheres e crianças chinesas são traficadas para fins de exploração sexual e laboral para a Malásia, Tailândia, Inglaterra, EUA, Austrália, Europa, Canada, Japão, Itália, Singapura, África do Sul e Taiwan. Para além de emissor, a China é também um país de trânsito de vítimas provenientes da Tailândia e Malásia para casamentos forçados, adopção ilegal, exploração sexual e trabalhos forçados. A China constitui, ainda, um pólo receptor de vítimas vindas da Mongólia, Coreia do Norte, Rússia, Vietname, Ucrânia e Laos.
Tráfico de mulheres e crianças no interior da China:
Anualmente, entre dez e 20 mil vítimas são traficadas no interior da China, a maioria das quais, mulheres e crianças provenientes das regiões mais desfavorecidas. Causas? O acelerado crescimento económico na costa leste chinesa e o excesso de mão-de-obra nas zonas rurais provocaram uma intensificação do fluxo migratório no interior do país, o que propiciou novas oportunidades para os traficantes. As mulheres residentes em zonas rurais são mais susceptíveis de vitimização. A escassez de jovens desposáveis – decorrente do défice do número de mulheres em relação ao de homens – aumenta a sua probabilidade de risco, acalentando fortemente o tráfico no país.
‘Aos 14 anos vim para a Europa. Vivia na terra e da terra, numa aldeia africana. Vivia em pobreza extrema. Vim para trabalhar e mandar dinheiro para matar a fome à minha família. Foi um homem que disse que me trazia para um país rico da Europa, onde se ganhava muito dinheiro. A minha família disse que sim – “Se é bom para ela, é bom para a família”. Era uma forma de o meu filho homem poder estudar. (…) Era uma forma de não passar tanta fome. A minha irmã também veio comigo. Ela tinha 16 anos. Ele tratou dos documentos. Mostrou os passaportes à minha família. Mostrou as viagens de avião que havia comprado. Quando tivéssemos dinheiro lhe pagaríamos todos os gastos e as trabalheiras que teve nesses afazeres. Não disse quanto, nem ninguém lhe perguntou. A minha irmã ficou numa cidade que ele disse ser de França. “ Um país muito rico onde tu ganhas o que preciso for”. Eu continuei viagem com ele. “Estamos em Espanha. Um país também cheio de promessas para o ganho do dinheiro.” Nunca mais vi a minha irmã. Fui posta numa casa com outras raparigas. Todas nós éramos muito novas. Éramos 17. Era uma torre com vários apartamentos. Não conhecia ninguém! Eram raparigas que me pareciam assustadas e indiferentes. Não compreendia a palavra delas, nem elas a minha. O primeiro cliente tinha, penso, 40 anos, não sei bem. Fechadas num quarto todo vermelho, cama redonda, espelhos onde eu me olhava como se eu fosse muitas. Homens também eram muitos e todos iguais. Obrigou-me a despir. E fez tudo, mas tudo o que quis de mim. Chorei, gritei, implorei. Nada. Ele foi indiferente. Indiferente não. Sorria e os olhos brilhavam. Eram de vidro pensei. Estive lá um ano. Veio o homem “amigo”, o da minha terra. Implorei-lhe que me levasse dali. “Ainda me deves dinheiro”. Sorriu, pensei que com carinho… Eu pago tudo o que devo, mas leva-me contigo. “Vamos para Portugal”, prometeu. Entregou-me a outro homem que numa carrinha fechada andou muito tempo. Não sabia se já era dia. Não, não sabia. Fui novamente para um andar. Aconteceu o mesmo que no outro lugar que se dizia Espanha. Estive lá três anos. Todos os dias, todas as semanas, o tempo sem horas. Veio outro homem que me levou de lá numa carrinha, outra fechada, e que me despejou com mais cinco numa rua de Lisboa, disse-me, depois, uma mulher que fui encontrando nos dias futuros. Até que enfim estava na rua, a agarrar o ar, o vento, a chuva, o frio, o calor. Já não era o mesmo ar de homens, que agarravam o meu corpo preto, com cheiro a perfume e com olhos de vidro cobiçando o fazer de prazeres arrancados de mim. A água da chuva lavava-me a alma, ensopava o meu corpo. Inspirava profundamente o cheiro da terra, o cheiro do ar, voando para a terra do meu lugar distante em lembranças passadas nos meus tempos de infância… Como fugir desta carrinha que me levava de uma casa para a rua, e da rua para a casa? Eu era outra. Acordava de noite com pesadelos de morte. Os meus mortos perseguiamme vivos, esses seres errantes apontavam-me o fogo purificador que me queimava a carne e a alma. Deixava-me ficar transformada em cinzas que penetravam a terra e que lhe dava vida. Eu renascia das cinzas e voltava a ser uma mulher de 14 anos purificada no Ser do meu filho que ficou na terra esperando por mim. Mas eu não voltarei. Serei morta. Contar na minha terra o que eu fazia na Europa do sonho africano não tinha perdão. “Se não fizeres isto conto à tua família e a todos os da tua aldeia”. O terror é de tal tamanho que não sei falar em palavras. Estou num lugar estranho. Sou estrangeira, preta, deambulando numa rua para traz e para a frente, indo com homens, recebendo dinheiro sem saber porquê. Hoje não me vendo. Alguém me ajudou sem medo dos homens que me metiam medo. Devolveu–me à terra deste país estrangeiro, onde sou preta, estrangeira. Cheiro o cheiro da terra, da água que rega esta terra onde crescem árvores plantadas por mim, flores, sebes, jardins. Mexo e remexo na terra que me entra no ser e me purifica. Afinal em terra estrangeira, uma preta estrangeira encontrou um lugar, onde a terra lhe foi devolvida e a dignidade lhe foi concedida. Sonho, sonho sempre que o futuro está a vir. Há-de vir toda a minha família para esta terra estrangeira para não passar fome e onde o meu filho homem há-de estudar. Eu não posso voltar.’
Preta e Estrangeira…./ Não posso voltar ….‘ in www.oninho.pt
Transcrito por:
Ana Ferreira
O ano de 2007 despediu-se. De copos na mão, muitos celebraram a entrada em 2008, com gáudio e sorrisos estridentes. Desejos, expectativas, resoluções e planos perfilharam-se na última noite. No entanto, não há muitos motivos para festejar o debutar de 2008. As inquietações políticas e socioeconómicas do ano transacto não se deixaram deslumbrar pelos espectáculos de pirotecnia; mantêm-se e é difícil vislumbrar o seu término.
Olhando em retrospectiva para 2007, encontramos um ano prolixo em episódios negros: mortes, sequestros, tortura, silenciamento, despotismo, censura, abusos, violência, corrupção, os quais corroeram mundialmente actividades como o exercício do jornalismo.
De acordo com Repórteres sem Fronteiras (RSF), em 2007, cerca de 86 jornalistas foram assassinados, o que corresponde a um aumento de 244 por cento em apenas cinco anos. Além disso, registou-se a morte de 20 colaboradores dos media, 887 detenções, 1511 agressões ou ameaças, a censura de 528 meios e o sequestro de 67 jornalistas. Em relação à blogosfera, cerca de 37 bloggers foram detidos, 21 agredidos e 2676 sites encerrados ou suspensos.
O Iraque foi o país onde morreram mais jornalistas (47), seguido da Somália (8) e Paquistão (6). Não obstante a pressão de organizações como os RSF, a maioria dos perpetradores destes deliberados homicídios fica impune, sob a égide de governantes hipócritas.
Em relação ao número de detenções, o Paquistão ocupa a posição cimeira com 195 profissionais detidos, seguido de Cuba (55) e do Irão (54). A China mantém 33 jornalistas presos e Cuba cerca de 24, ambas consideradas as duas maiores prisões do mundo para os profissionais dos media.
Refira-se, ainda, o sequestro de, pelo menos, 67 profissionais dos media, num conjunto de 15 países. O Iraque mantém-se como a zona mais perigosa, onde 25 jornalistas foram raptados, dos quais dez terão sido executados. Actualmente, cerca de 14 jornalistas se encontram como reféns no país.
Países como a China, Birmânia ou Síria renitem em limitar o acesso à Internet, visando converter a Web numa Intranet, isto é, numa rede destinada a intercâmbios no interior do país, somente acessível a pessoas autorizadas.
Liberdade de imprensa? Qual liberdade de imprensa?!