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Monthly Archives: Junho 2007

Por volta dos anos 50, muitas mulheres delegavam poder ao Estado Ditatorial, por meio de cartas ou de escritos que ficaram célebres na História Ditatorial Portuguesa. De facto, muitas cartas encontradas em alfarrabistas mostram a gratidão, de muitas destas mulheres, ao emblemático ditador que tinha como fim mobilizar,as mesmas,em nome daquilo que considerava ser a Ordem, a Paz e sobretudo a defesa da Pátria. Sartre vem-nos confirmar esta ideia: “O Homem consegue mudar a situação daquilo que a Sociedade fez dele”, ou seja, apesar da obediência e da submissão intencional destas mulheres, as últimas deveriam respeitar e contribuir para a consolidação de um Estado forte. Pretende-se, de facto,confrontar, hoje, as mulheres com os fantasmas do passado e tendo como apoio um material de arquivo inédito, “Cartas a uma ditadura” é um mergulho perturbador no obscurantismo que dominou Portugal por mais de 50 anos. Esta é,sem dúvida,uma história que Inês de Medeiros há tanto protagonizou. Atentemos nos relatos de algumas mulheres:

1. Manifestações de apoio a Salazar:
As mulheres, com menos ideias políticas, menos exigentes, menos complicadas, com noções de valores muito mais restritas, estão hoje aqui a dizer: Obrigado Salazar!” (locutora de rádio)2. Escritos
A ideia deste movimento era ter uma tropa feminina, mas não era para combater. Era uma tropa forte, que se todas tivéssemos que dizer não, era não. Mas também não sabíamos bem a quê.”

3. Eleições de 1958:

Não sabíamos bem o que é que o General Delgado ia dar, se era melhor ou pior do que o Salazar. Na altura creio que se pensou que ele era uma espécie de Hitler ou de Mussolini…ou que não era. Agora é que me está a parecer que era um homem bem intencionado.”4. Salazar:

“Era um belo homem, um homem muito bonito e atraente.”“Havia muitas mulheres que adoravam Salazar. Uma amiga minha dizia que tinha três homens na sua vida: o marido, o filho e o Salazar…”

“Eu era uma admiradora de Salazar, porque achava que ele era um homem muito sério. Mas naturalmente havia de ter deficiências. Perfeito só Deus.”

5. O ideal feminino:

“A mulher deve ser o anjo do lar. Uma mulher pode fazer um homem muito bom ou muito mau.”
“O papel da mulher casada é a casa. A casa, eu digo sempre às minhas filhas, é a coisa principal! O meu pai dizia: um homem, para andar satisfeito, tem que ter uma boa mesa! Chega a casa, comeu bem, está bem servido!”
Ana Ferreira

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A imagem da mulher projectada pela indústria da publicidade é fundamente deambulatória: ora a representa como um ser passivo e submisso, ora como um magistral símbolo sexual.
Por um lado, tende a rotulá-la como a “fadinha do lar”, ou seja, o elemento do agregado familiar a quem incumbe, por natureza, a organização da esfera doméstica. Os slogans tradicionais e sexistas sucedem-se nos spots televisivos e nos outdoors; as mensagens publicitárias de detergentes ou de produtos alimentares parecem ser de interesse exclusivo da mulher. Vejamos alguns exemplos lamentáveis:
“O sorriso de nove em cada dez mulheres brilha, graças à acção do novo Calgonit Quantum”

Quando a mulher aparece nos spots publicitários deste tipo de produto – detergentes –, é uma mera coadjuvante do protagonista homem ou presença passiva. Pensemos, por exemplo, na publicidade do detergente “Xau”. Aparece um indivíduo a pôr à prova a eficácia do produto perante uma plateia inteiramente feminina. Qual a razão deste papel passivo da mulher? Porque é que não há homens na assistência?

E já repararam no spot da marca “Air Wick”? Aparece uma simpática macaca a assegurar que este produto lhe permite manter a sua casa perfumada. Por que razão uma macaca e não um macaco? Oh, perdoem-me o disparate! É evidente que as tarefas domésticas são para o sexo feminino, seja qual for a espécie.

Para além do papel de mulher submissa e de “fada do lar”, a publicidade veicula ainda uma outra imagem: a mulher como símbolo sexual. Raros são os spots nos quais não surgem mulheres nuas ou coisificadas! Quando a imaginação e o talento escasseiam nos criativos, coloca-se uma mulher nua em posições voluptuosas e, pronto, está feito!

O Código de Publicidade português “condena qualquer forma de discriminação em relação à raça, língua, território, religião, sexo”, mas a realidade é bem diferente. Há o risco iminente da absorção da publicidade pelo sexismo e da sua transformação em “pornografia chique”.

O relatório de uma socialista turca, Gulsun Bilgehan, aprovado pela assembleia parlamentar do Conselho da Europa, chama a atenção para a perigosidade da publicidade efectuada na actualidade: “os jovens são muito influenciados pelos ‘spots’ publicitários e, em geral, a publicidade difunde uma imagem desfocada da realidade, em especial da realidade das mulheres”. A deputada sugere a criação de um número verde ou de um mail para que cada cidadão tenha a possibilidade de denunciar os anúncios que atentem contra a imagem da mulher.

É uma solução a pensar, mas será que as pessoas estão sensibilizadas para esta questão?
Vão participar criticamente? Será mais uma tentativa frustrada na luta contra o sexismo?

Anabela Santos
De acordo com as Nações Unidas, um refugiado é uma pessoa que se encontra fora do seu país de origem porque tem fortes probabilidades de ser objecto de abusos graves, em virtude de a sua religião, etnia, raça, crença ou ideologia. Os refugiados não podem e não desejam regressar ao seu país enquanto o Governo não lhes garantir protecção.
DARFUR:

Os dados do Alto Comissariado da ONU revelam a existência de 20,8 milhões de refugiados em todo o mundo e as regiões mais afectadas são a Ásia, África e até mesmo a Europa.

KOSOVO:

Os refugiados têm direito à liberdade religiosa e de circulação; protecção contra sanções penais por entrada ilegal; casa, educação e assistência pública; documentos de identidade e viagem; protecção contra a qualquer discriminação. Todavia, a realidade dos milhões é turva e muitos deles permanecem em condições de aguda exploração e abuso dos seus direitos individuais.

Anabela Santos

AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt

Crime de honra designa os actos de extrema violência, geralmente homicídio, perpetrados por membros de uma família contra uma mulher do mesmo núcleo (irmã, filha, esposa, …) pelo facto de considerarem a sua conduta imoral e nociva para a honra familiar.
Este crime, enraizado e legitimado em muitas sociedades, já ceifou milhares de vidas humanas (5000 anualmente; fonte: UNFPA) e teima em perpetuar-se.
A jovem iraquiana, Du’a Aswad, foi mais uma vítima da estupidez e intransigência de uma cultura que subjuga os seus membros. Em Abril, Du’a Aswad foi apedrejada publicamente até à morte na cidade de Mosul, no Iraque. A jovem pertencia à minoria iraquiana yazidí não muçulmana da população de Bahzan. Foi assassinada, perante centenas de pessoas, pelos seus próprios familiares porque mantinha uma relação com um rapaz. As autoridades policiais locais assistiram ao crime, mas permaneceram estáticas; nada fizeram para evitar a morte de Du’a Aswad. Quatro dos culpados pela sua morte foram detidos e acusados de homicídio. As autoridades continuam as buscas de, pelo menos, mais quatro homens. Resta-nos esperar para verificarmos se as penas são cumpridas e os restantes culpados capturados.
A situação da mulher no Iraque agravou-se com a invasão norte-americana, em 2003. As mulheres são vítimas de sequestros e abusos sexuais, crimes praticados por grupos de delinquentes e grupos armados dissidentes do governo. O número de “crimes de honra” aumentou significativamente, principalmente na região do Curdistão. As condenações dos indivíduos que cometem este crime são benevolentes, o que põe em causa a sua erradicação.
O Governo iraquiano não aprova as reformas legais necessárias para tipificar o “crime de honra” como um crime grave, nem sequer promove plataformas de ajudas às mulheres que estão sob o perigo constante. As organizações e os activistas pelos direitos humanos continuam a não ser suficientemente audíveis.
Anabela Santos

Entrevista ao director da Unidade de Prevenção de Drogas de Braga (IDT)

O director da Unidade de Prevenção de Drogas de Braga (IDT), Miguel Viana aceitou responder às perguntas d’ “O Mal da Indiferença” ligadas ao consumo de drogas. Os perigos das drogas “leves” e as consequências de uma possível despenalização.
Considera que as drogas leves representam um caminho para o consumo de drogas pesadas?

O que está aqui em questão é o fenómeno de escalada, pode ser produzida de diferentes formas pelo indivíduo. Pode-se dar uma escalada, intensificando a quantidade da substância que consome provavelmente porque o organismo do consumidor já adaptado e o efeito diminui. Pode-se dar um processo de escalda, consumindo mais vezes ou então passando de um consumo fumado para um consumo injectado, para rentabilizar ao máximo a substância que adquiriu. Mas também pode haver uma escalada havendo uma transição de substâncias. Mas será abusiva e excessivo dizer que, linearmente, todos aqueles que consumiram drogas leves acabam por consumir drogas pesadas.
“congelem as ideias não passem logo ao acto…”
Concordaria com a despenalização das drogas leves em Portugal?A partir do momento em que ela estivesse enquadrada em algum mecanismo de acesso legal, tudo aquilo que são os meandros do tráfico e que são todas as outras substâncias adicionadas para aumentar as quantidades e se obter mais lucro, tenderiam a desaparecer porque seriam supervisionadas.
Se houvesse uma hipótese de acesso, isso poderia amortecer ou diminuir o número de indivíduos que passavam a injectar-se, sabendo que a injecção de drogas está intimamente ligada à transmissão de doenças infecciosas.
Qualquer que fosse o enquadramento, a idade, o local de acesso (o acesso seria possível em que estabelecimento? Em farmácia, em drogarias, em centros de saúde), a quantidade (qual é o limite?) e o controle de quantidade comprada seriam questões a definir. A representação social e a segregação, que estão aliados ao consumo de determinada substancia, fariam com que o potencial consumidor adquire drogas no mercado ilícito. A evidência demonstra que o início das drogas começa muito cedo. Os adolescentes que consomem precocemente terão que adquiri-la ilegalmente.

E a despenalização das drogas leves?Relativamente às drogas leves, chama-se drogas leves porque a população considera que em fase daquilo que são as consequências que socialmente são visíveis. Salvaguardando as distâncias e diferenças que existem entre as diferentes substâncias, o que é facto é que há substâncias que dão dependência física (heroínas) e outras que não dão dependência física (cannabis). Em primeira analise, o que é a dependência? É a incapacidade de o indivíduo conseguir controlar este comportamento. Quando começa a consumir cannabis e torna-se dependente e cria um processo de dependência, isto é leve? Não produz as consequências da heroína, não produz de uma forma imediata e tão célere. Há drogas que as consequências vão insinuando-se dia após dia, a diferença de um dia para o outro é microscópico. Uma coisa vos garanto, um consumidor de cannabis ao longo de anos, começa-se a notar a diferença.
A probabilidade do indivíduo desenvolver uma doença psiquiátrica grave, segundo o comprometimento em várias tarefas cognitivas do indivíduo como por exemplos questões relacionadas com a memorização ficam altamente afectadas. Uma dependência que se vai agravando com um fundo depressivo misturado muitas vezes com um registo paranóico, “toda a gente me quer fazer mal, só complicam, os professores querem me complicar a vida, os meus pais, o chefe”, e uma impulsividade e uma agressividade verbal que também vai crescendo. Em última analise a perda de escolha, o indivíduo para fazer as outras actividades de vida que inclusivamente antes do consumo lhe davam prazer, primeiro tem que ter sempre consumo. Quando temos algum com um quadro de dependência a uma substância que esta a comprometer desta forma, embora possa demorar tempo a se estabelecer isso, pode influenciar a que ele tenha comportamento de risco. Alguém sobre o efeito desta ditas drogas leves acaba por ter comportamentos de riscos ao volante, comportamentos sexuais desprotegidos que vem a contrair uma doença infecciosa. Ao analisar isto tudo será que estamos disponíveis para dizer que isto é leve?

“As pessoas que não são capaz de pedir ajuda estão num patamar de imaturidade.”

Concorda com a implementação das Salas de Chuto?

Eu gosto da terminologia salas administração acética. A ideia que está por trás da criação destes espaços seria em determinados locais onde existe forte evidencia que existe muitos consumidores a consumir droga de forma desorganizada, a correr muitos riscos, a partilhar seringas, a deixarem muito deste material difundido. Então vai ser criado um espaço em que pelo menos haja uma garantia de que as pessoas não vão andar a difundir doenças uns aos outros porque isto constitui um problema para a saúde e sobre o ponto de visto financeiro para o estado. Pretende-se que as pessoas façam o consumo da substância de uma forma acética e que haja uma garantia que não vão contrair mais doença do que aquelas que já têm.
Isto só será pertinente em casos muito particulares onde a evidencia de anos demonstra que existe sítios onde há uma forte concentração de pessoas a consumir droga em condições particularmente adversas e que isto constitui um forte perigo para a saúde pública de eles mas de todos o resto da população com um impacto inclusivamente financeiro para o estado. A hipótese de existir espaços para consumos acéticos em determinados locais depois de confirmado que existe um foco muito grande de perigo poderá ser equacionado esta resposta. Isto tem de ser uma medida quase de excepção, é uma medida que deve ser utilizada quando todo o resto já foi feito e não está a ser eficaz.A sociedade em geral está sensibilizada para a temática da toxicodependência?

Esta sensibilizada. Falta saber se esta sensibilizada da forma mais adequada. Provavelmente esta temática, que já esteve mais na ordem do dia, se essa pergunta fosse feita há dez anos atrás talvez a resposta fosse de outra forma. Hoje em dia a toxicodependência não é uma daquelas problemáticas consideradas como prioritárias. Contudo a população em geral particularmente no papel de educadores preocupa-se com esta questão das drogas. As drogas são uma daquelas que talvez mais preocupe os educadores. A população está preocupada, esta mas na lógica do medo.
Esta sensibilizada mas esta muito do lado reactivo não esta do lado projectivo. É um passo que era preciso ser dado. É da responsabilidade dos técnicos contribuir na medida do possível para clarificar ou transpor para a sociedade civil o que é o conhecimento actual sobre o fenómeno. De uma forma serena, ponderada, seria, rigorosa, não diabolizada.
Falamos do “fenómeno da droga”, um termo singular, forma isolada, como se fosse uma identidade única. Os jornalistas usam muito este termo “o flagelo da droga”, há qualquer coisa que não esta bem. Flagelo significa ocorrência que vai atingir tudo e todos independentemente das medidas preconizadas para evitar a ocorrência do fenómeno. Então porquê investir na prevenção? Ou acreditamos que há algo que podemos fazer? Eu acredito que sim, há várias para diminuir a probabilidade das pessoas terem o problema com as drogas então isto já não é flagelo. É um problema muito sério, muito complexo, e exige investimento e não só financeiro. Esta ideia flagelo é resultado da angústia, sofrimento e de um certo pânico moral que existe um torno de questões da droga. O medo de que pessoas que nos gostamos serem atingidos por uma coisa dessas.
Que mensagem transmitiria a todos aqueles que experimentam por simples curiosidade? Se vale a pena?

É uma boa pergunta para lhe expor a eles. Eles é que tomam a iniciativa e eles mais do que ninguém poderão dizer se vale ou não a pena. Alguns deles pensam que estarão convencidos que terá valido a pena. Mais do que dizer o que eles devem ou não fazer no fundo eles próprios devem se interrogar.
O que é que eu busco no consumo? Quais são os riscos que eu corro ao consumir? Quais são os benefícios que sai advêm? Será que é possível serem felizes para eles sem consumirem drogas? Em face das respostas que derem tomem as decisões que muito bem entenderem. E quando tomarem as decisões de tomarem drogas que façam o truque que eu chamo de truque do congelador. Quando se tem uma ideia que se parece boa ideia colocam-na no congelador, isto é no cérebro, e tirem-na dos congeladores passados oito quinze dias. E quando descongelarem a ideia, voltem a olhar para ela pensam sobre ela e vê se ela continua a ser boa ideia.
Na maioria dos casos quando pensamos que temos uma boa ideia passado dois ou três dias, já não nos aprecem tão boa. Portanto congelem as ideias, não passam logo ao acto, não seja impulsivo. Regra geral a impulsividade é sinónimo de imaturidade. Primeiro pensar, reflectir sobre todas as variáveis, o porquê o que pretendo com o consumo e depois se o fizer e se tiver duvidas não há nada como ser capaz de pedir ajuda. Um dos critérios que pode definir alguém com maturidade é alguém que é capaz de pedir ajuda. As pessoas que não são capaz de pedir ajuda estão num patamar de imaturidade. Muitas vezes funcionamos de uma forma infantil é o aqui e agora e já, não precisamos da ajuda de ninguém.
Sylvie Oliveira