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Category Archives: Mercado de trabalho

Discriminação feminina no  mercado de trabalho em Portugal situa-se próximo dos valores médios da OCDE.

A taxa de emprego das mulheres em Portugal foi, no primeiro trimestre de 2008, cerca de 20 por cento abaixo da dos homens, situando-se entre os valores médios dos países da Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento (OCDE), de acordo com o seu relatório sobre o emprego, ontem divulgado.

A situação de discriminação das mulheres é igualmente patente no facto de, nos últimos dez anos, a taxa de desemprego das mulheres ter–se situado entre 30 e quase 60 por cento acima da dos homens, apesar de, no mesmo período, se assistir a uma contínua entrada de mulheres no mercado de trabalho. Em 1998, a taxa de actividade das mulheres era 23,5 por cento abaixo da dos homens. Dez anos depois, já se reduzira para 17,7 por cento.

Portugal segue o padrão do conjunto dos países da OCDE e não deverá melhorar nos dois próximos anos. O relatório prevê para 2008 e 2009 um abrandamento na criação de emprego (de 1,8 e 1,7 por cento respectivamente) face a 2,7 por cento em 2007. E espera-se, no mesmo período, uma subida do desemprego. Ou seja, uma conjuntura pouco dada a absorções de desigualdades.

Aliás, o relatório dedica um capítulo à discriminação no mercado de trabalho. Uma das principais linhas de análise é a de que o mercado de trabalho continua fortemente desequilibrado, tanto no seu acesso como na própria remuneração do trabalho.

Em média, a taxa de emprego das mulheres era, em 2005, dez a vinte por cento mais baixa do que a dos homens. Os menores desvios de emprego entre sexos verificam-se nos países nórdicos, oscilando entre os cinco e os oito por cento. Depois, vêm os EUA e o Canadá, com uma diferença entre os 10 e os 15 por cento. A maioria dos países registou um desnível entre os 15 e os 25 por cento – Alemanha, Reino Unido, Áustria, Nova Zelândia, Portugal, República Checa, França, Holanda. A Irlanda aparece com um nível de diferença de 27 por cento. E finalmente um grupo com um desnível entre os 35 e os 40 por cento – Coreia do Sul, Espanha, Itália e Grécia.

Apesar disso, esse desnível tem vindo a atenuar-se ao longo das últimas décadas. Foi todavia mais rápido na década de 1985-95 do que na de 1995-2005. Em países como Espanha, Luxemburgo, Irlanda ou Holanda, o desfasamento entre a situação dos homens no emprego e a das mulheres reduziu-se a um ritmo anual de 1,5 pontos percentuais nos últimos dez anos. Em Portugal, os valores têm sido mais baixos. Se, em 1995, a discriminação no emprego entre homens e mulheres se situava em 20 por cento, a redução anual dessa diferença aproximou-se dos 0,75 pontos percentuais.

Essa redução teve a ver com alterações no comportamento das mulheres e na forma como passaram a olhar a profissão e a família, bem como dos esforços das políticas de emprego, progressivamente direccionadas para “alvo” críticos – mulheres, jovens, desempregados. O relatório chama, porém, a atenção para o caso dos países nórdicos. A reduzida discrepância dos níveis de educação entre homens e mulheres “pode dar uma pista sobre como o desnível no emprego por sexos pode ser reduzido através do nível de qualificações”.

Fonte: PUBLICO [versão impressa online, 3.07.08. Reservados os direitos de autor]

“O homem é a fada do lar”

Em Itália, a discriminação no mercado de trabalho é uma realidade ainda proeminente, que se incorpora dos “estereótipos de género”. Em média, as italianas ocupam cinco horas por dia com as actividades domésticas enquanto os homens cerca de uma hora e meia. Tendo de conciliar a profissão com as tarefas do lar, as mulheres vêem reduzidas as possibilidades de apostar na sua carreira. Além disso, existe o “glass ceiling”, um limite invisível que as impede de ascender profissionalmente na pirâmide do mercado de trabalho, colocando-as em posições subalternas.       

A associação Arcidonna lançou o projecto ‘Laboratorio di Pari Opportunità: pratiche per il superamento degli stereotipi’ com o propósito de erradicar os “estereótipos de género” dos seus principais berços: família, escola, empresas e media.

Para mais informações, passa por AQUI!

Anabela Santos

De acordo com o relatório ‘Global employment trends for women’ [Março|2008 ] atinente à participação das mulheres no mercado de trabalho mundial, a taxa de emprego feminina aumentou 18,4% na última década, correspondendo a um acréscimo de 200 milhões de mulheres. Mas não nos deixemos inebriar por este acréscimo!

Com efeito, o espectro do desemprego encontra nas mulheres o seu alvo preferencial: o número de mulheres desempregadas aumentou de 70,2 para 81,6 milhões no último decénio. A taxa de desemprego feminina foi de 6,4%; um valor que se sobrepõe aos 5,7 % da masculina.

As mulheres concentram-se maioritariamente nos sectores menos produtivos da economia. Estão mais afectas às flutuações do mercado, as suas remunerações são inferiores às dos homens e encontram mais dificuldades no acesso à protecção social e no exercício dos seus direitos fundamentais.

O documento do International Labour Office destaca, contudo, tendências vaticinantes de um progressivo empoderamento das mulheres. Os níveis de educação das mulheres aumentaram globalmente e, em diversas regiões, verificou-se um estreitamente da desigualdade de género no âmbito das relações laborais.

O empoderamento económico das mulheres está intimamente relacionado com as suas possibilidades de participar no mercado de trabalho e com as condições que enfrenta quem deseja encontrar um emprego”, lê-se no relatório.

O aproveitamento das potencialidades das mulheres e a sua integração no mercado de trabalho (com a salvaguarda dos seus direitos!) revestem-se de suma importância, já que confluem para o desenvolvimento económico mundial.

Para obter informações detalhadas sobre as regiões em análise, clica AQUI!

Anabela Santos

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Christine Ockrent, jornalista francesa, acaba de ser nomeada directora geral de uma sociedade holding com o nome France Monde. A nomeação gerou de imediato várias polémicas acusando a profissional de conflito de interesse já que é casada com Bernard Kouchner que occupa o cargo de ministro dos negócios estrangeiros.

“ Para as mulheres da minha geração, o facto de ser periodicamente reduzidas ao estatuto de “mulher de”, negando a sua identidade, as suas competências, o seu percurso profissional, francamente penso que isso é injusto e humiliante, e espero o momento em que se falará e se pedirá a um homem de sacrificar a sua identidade, as suas competências, o seu percurso para fazer arranjos de flores”, desabafou a jornalista ao jornal Le Fígaro

Segundo uma crónica do Le Monde , Hillary Clinton terá sofrido vários ataques sexistas durante a sua campanha. Segundo o New York Times a filha Chelsea terá decidido apoiar mais activamente a mãe porque estava chocada com vários comentários que sofreu.

“ Anda passar as minhas camisas” é um dos exemplos das críticas que tem sofrido, uma tentativa bem clara de tentar colá-la a imagem de mulher, dona de casa, criticando a sua legitimidade e o seu direito a ser cândida a presidência.
Num ensaio feminista Robin Morganne explica os deslizes que ocorrem mas que não chocam ninguém por se tratar de uma mulher. A autora dá um exemplo radical para ilustrar a situação, assim questiona qual seria a reacção se um racista teria gritado a Barack Obama: “ Anda me engraçar os sapatos”. 

A imprensa também não poupa a candidata o apresentador de MSNBC , Chris Matthews afirmou que ela “irrita os homens”, dando a entender que a sua eleição para o senado deveu-se a piedade dos eleitores devido as infidelidades do marido.

O neo-conservador  Kill Bristol afirmou que “ as mulheres brancas tem um problema. Nos convivemos todos com isso”. esse pensamento completamente ridículo e sexista não despertou nenhuma reacção.
Segundo a mesma crónica, Hillary Clinton provoca um ódio desproporcionado, várias acusações são lhe feitas em panfleto descrevendo todas as suas maldades: bruxaria, delinquência, abandono do gato da Casa Branca..). Para os opositores não existe nenhum tipo de misoginia, deve-se somente a personalidade da candidata. Na verdade nada de mais comum do que criticar um candidato pelo seu programa ou ideias politicas, mas este tipo de comentários são discriminatórios, são misóginos, são sexistas.

Enfim mais dois casos,  de duas mulheres que a única características que tem em comum é sofrer de discriminação por ter sucesso. Duas mulheres avaliadas não pelo seu percurso, não pela sua ideias, ou pela ausência delas, não pelo seu trabalho mas por ser “ mulher de..”, por ser mulher.

Sylvie Oliveira

A majestosa Europa julga-se um continente avançado que, sempre na vanguarda, acompanha as novas modas da Pós-Modernidade. Esquece, porém, que muitas das condições essenciais a uma fruição plena da cidadania possuem unicamente existência teórica. A assimetria salarial entre homens e mulheres monstra precisamente um continente vulnerável e titubeante em matéria de Direitos Humanos, revelando, simultaneamente, o quão longe está de alcançar a Igualdade de Género.
A França, pela voz do ministro do trabalho, Xavier Bertrand, manifestou, hoje, o intuito de pôr fim ao desfasamento remunerativo entre géneros, apanágio das economias desde o ingresso da mulher no mercado de trabalho, no século XIX. Nesse sentido, anunciou a aplicação de sanções às empresas que não actuem em concordância com a “lógica da correcção salarial”, a partir de 2010. Em Maio, o ministro do trabalho havia já demonstrado a intenção de estreitar este gap: “Se, no curso de dois anos, não tivermos conseguido obter resultados nas empresas, a Inspecção do trabalho terá a possibilidade de poder transmitir estes casos de discriminação”.
Não obstante o maior sucesso escolar feminino, em França, as mulheres são mais afectas ao desemprego, preenchem maioritariamente a base da pirâmide do mercado de trabalho e obtêm remunerações inferiores, não havendo, por isso, uma proporcionalidade entre as suas competências e o seu estatuto no emprego e na família – uma realidade, de resto, em tudo idêntica à portuguesa. De acordo com um estudo “Emplois du temps” de Insee (1998-1999), uma mulher ocupa, em média, num ano, 680 horas no trabalho doméstico mais do que o seu companheiro. E quando um dos cônjuges tem de abdicar da sua carreira profissional para cuidar das crianças, são maioritariamente as francesas a fazê-lo. A obrigatoriedade de conciliar o emprego com a família é um dos maiores obstáculos à efectiva integração da mulher no mercado de trabalho.
Como asseverava há pouco, a realidade laboral em Portugal não difere em nada da francesa. Recorrendo a um texto anterior, estão, em baixo, apresentadas as principais linhas (sexistas, misóginas) caracterizadoras do mercado de trabalho português:
– A participação feminina no mercado de trabalho é, de facto, incontestável. Todavia, não nos deixemos seduzir por meros valores, pois apenas nos induzem em erro. Não podemos olvidar a maior susceptibilidade feminina no que concerne ao desemprego. Com efeito, a taxa de desemprego da mulher é muito mais insinuante do que a do homem. No terceiro trimestre de 2007 (INE, Estatísticas do Emprego), a taxa de desemprego dos homens foi de 6,6% enquanto a das mulheres ascendeu aos 9,3%.
– A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho contribui para a sua emancipação. Porém, a máxima “salário igual para trabalho de valor equivalente” é assaz adulterada. Em média, os salários das mulheres são nitidamente inferiores aos dos homens, mesmo nos níveis de qualificação mais elevados.
– Qualquer situação desviante da norma é punida (hipocritamente): veja-se o caso da gravidez, por exemplo. Quantas mulheres são demitidas pelo facto de terem engravidado? Não raras são as entrevistas de emprego que levantam uma questão assaz pertinente: quando pretende ter filhos? Mais. Quantas mulheres protelam a maternidade em virtude dos desejos da entidade patronal?
– As mulheres estão em maioria nas universidades – é um facto inegável. Contudo, coloque-se a questão: será que detêm o mesmo estatuto que os homens? Por um lado, há uma concentração feminina num conjunto restrito de actividades profissionais, a saber, serviços pessoais e domésticos, saúde e acção social e educação – segregação horizontal. Por outro, a nível da verticalidade do mercado de trabalho, verifica-se uma maior prevalência das mulheres nos níveis inferiores da hierarquia profissional, ou seja, à medida que aumentam os níveis de qualificação, a concentração feminina diminui – segregação vertical.
– A violência laboral transfigurada no assédio moral e sexual torna-se cada vez mais evidente e nefasta para as relações entre os indivíduos. O assédio moral corresponde a tentativas de descredibilizar, escarnecer, menosprezar manifestadas por um indivíduo em relação a um que lhe é hierarquicamente inferior. Esta forma de violência é, frequentemente, exercida sobre mulheres que retomam as suas funções laborais após um interregno para usufruir da licença de maternidade. O assédio sexual consiste, por seu turno, num comportamento de cariz sexual indesejado por quem é objecto da mesma. Traduz-se em suborno sexual (a vítima é aliciada com oportunidades de formação profissional, promoções, aumento de salário se aceder aos “pedidos” que lhe são colocados); comentários inoportunos, agressões físicas, posturas sexuais. De notar que, uma vez que as mulheres estão escassamente representadas nas posições de chefia, as vítimas de assédio sexual são maioritariamente do sexo feminino.
Em suma, as mulheres não detêm o mesmo status e oportunidades que os homens no campo profissional. As actuais estruturas do mercado de trabalho transparecem algo que parece anedótico, mas triste: a mulher deixou a subserviência doméstica pela marginalização no emprego!
Anabela Santos

Entrevista à agente pricipal da PSP do distrito de Braga, Maria Benilde.

Com um percurso histórico iniciado em 1867, a Polícia de Segurança Pública (PSP) admitiu a primeira mulher-polícia no ano de 1930. Nas décadas subsequentes, o alistamento feminino continuou, principalmente destinado a incumbências como a vigilância de mulheres e crianças. Não obstante, a admissão significativa de mulheres para a PSP é conseguida apenas em 1972, em virtude da reorganização dos serviços da instituição. A readmissão de mulheres volta a acontecer, em 1980: das 14 mil candidatas, 312 conseguiram ingressar. Actualmente, a PSP conta com um corpo de 17 000 agentes em todo o país, mas apenas 10% é constituído por mulheres. A agente principal da PSP de Braga, Maria Benilde, contou ao ‘O Mal da Indiferença’ a sua experiência pessoal de 26 anos, as vicissitudes, semelhanças e diferenças de uma profissão onde a presença feminina ainda é escassa.
Por que razão decidiu optar por uma carreira na PSP?
Eu já tinha um irmão que era agente da PSP e, quando era pequena, adorava andar de boné dele e dizia: “Eu também quero ser polícia”. Quando vim para a polícia eu já estava empregada. Entretanto, abriu um concurso e foi um desafio. Havia tantas mulheres a quererem ir para a polícia que, embora eu já tivesse um futuro, decidi concorrer. Foi muito bom quando apareceu em casa o postalinho para eu ir para a Escola para fazer o curso de formação para agentes da PSP. Gosto de ser polícia, não tenho vergonha de dizer que o sou. Pelo contrário, tenho um grande orgulho porque ser polícia é muito bonito.Qual foi o seu percurso na PSP até assumir a actual função – a de agente principal?
Não optei por ascender na carreira policial porque me dediquei mais à minha vida particular. Comecei pelo serviço de rua e praticamente não fiz mais nada, fiquei por agente. Dediquei-me mais à minha família e não tanto à carreira profissional em si.

No exercício da sua profissão, alguma vez se sentiu discriminada pelos seus colegas pelo facto de ser mulher?
No princípio, quando eu vim para cá há vinte e tal anos, existia uma pouco de discriminação. Presentemente, acho que isso não se verifica de maneira nenhuma.

E a sociedade civil? Trata-a de igual modo, valoriza o seu trabalho ou subestima-o?
Presentemente, acho que a mulher-polícia já é vista como uma pessoa normal, o que não acontecia há 26 anos atrás. É uma profissão como outra qualquer.

Para acompanhar uma situação de violência, a selecção dos agentes tende a privilegiar o sexo masculino pelo facto de deter uma maior força física?
Presentemente, enviam-se mais homens do que mulheres para o estrangeiro, por exemplo.

Porque é que isso acontece?
Ainda há um bocadinho de preconceito.

Esse preconceito não conduz à discriminação?
Pode não chegar a esse ponto. A partir do momento em que uma pessoa abraça uma missão, essa discriminação passa ao lado, deixa de existir. Acho que tudo vai pelo princípio de uma missão porque este é o mais difícil. Depois de se estar integrado a coisa vai para a frente.

“A nossa sociedade ainda é assim: o homem ainda pode ir e a mulher ficar. Lá virá o dia em que o homem fique e a mulher vá!”
Optou por não ascender na carreira porque decidiu dedicar-se mais à família. Acha que as suas colegas agentes sentem a mesma dificuldade em conciliar a vida familiar com a profissional?
Como em todas as profissões, ser mulher acarreta um duplo esforço porque os homens ainda não assumem a responsabilidade na educação dos filhos. É sempre à mulher que compete esta função. Então, ser policia, mãe, dona-de-casa é uma sobrecarga muito grande.E este facto poderá inibir a ascensão das mulheres na hierarquia profissional?
Sim, porque há alguma coisa que vai falhar na vida profissional ou na vida privada. Se elas optam ascender na carreira profissional, o ambiente familiar vai ficar um pouco descurado. Já não vai ser uma mãe tão presente porque não pode.

À semelhança do que acontece em outras profissões, a agente é directa ou indirectamente coagida a fazer uma opção…

Como qualquer pessoa e em qualquer profissão, tem-se sempre de escolher. E se toma a opção de ascender na carreira, tem que andar com as malas às costas porque não tem sítio fixo para exercer, tanto pode estar no Porto como em Lisboa.

E a relação com as suas colegas agentes diz-lhe que a escolha recai sobre a vida familiar ou a vida profissional?
Há mais mulheres agentes do que superioras. Eu admiro muito as minhas superioras porque elas fazem uma opção e depois vão tentar conciliar dentro do possível as duas esferas.

E isso já não acontece com os seus superiores que mantêm total disponibilidade para se dedicarem ao desempenho das suas funções…
Mas isso provém da nossa sociedade! A nossa sociedade ainda é assim: o homem ainda pode ir e a mulher ficar. Lá virá o dia em que o homem fique e a mulher vá!

Texto: Anabela Santos
Fotografia: Sylvie Oliveira

Entre avanços e retrocessos, a mulher deixou o lar, delegou em outrem (parte) da educação dos filhos, começou a obter o seu próprio salário. Portugal, país de brandos costumes, não foi excepção e a taxa de participação feminina no mercado de trabalho conheceu um crescimento significativo nas últimas décadas.O cenário parece, de facto, auspicioso: a mulher sai de casa, liberta-se do cordão de dependência do marido, que lhe fora secularmente imposto; apresenta-se como um membro da sociedade emancipado e auto-suficiente. Contudo, o panorama não é tão agradável como desejaríamos. Não obstante o ingresso feminino no mercado de trabalho, este apresenta ainda uma estrutura marcadamente masculina que marginaliza a mulher. Sustenta-se ainda que a esfera pública é, por natureza, o espaço do homem enquanto o da mulher é remetido para a esfera privada ou doméstica.
Para comprovar as minhas asserções, atentemos nos traços característicos mais proeminentes da realidade laboral portuguesa:

– A participação feminina no mercado de trabalho é, de facto, incontestável. Todavia, não nos deixemos seduzir por meros valores, pois apenas nos induzem em erro. Não podemos olvidar a maior susceptibilidade feminina no que concerne ao desemprego. Com efeito, a taxa de desemprego da mulher é muito mais insinuante do que a do homem. No segundo trimestre de 2006 (INE, Estatísticas do Emprego), a taxa de desemprego dos homens foi de 6,4% enquanto a das mulheres ascendeu aos 8,3%.

– A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho contribui para a sua emancipação. Porém, a máxima “salário igual para trabalho de valor equivalente” é assaz adulterada. Em média, os salários das mulheres são nitidamente inferiores aos dos homens, mesmo nos níveis de qualificação mais elevados.

– Qualquer situação desviante da norma é punida (hipocritamente): veja-se o caso da gravidez, por exemplo. Quantas mulheres são demitidas pelo facto de terem engravidado? Não raras são as entrevistas de emprego que levantam uma questão assaz pertinente: quando pretende ter filhos? Mais. Quantas mulheres protelam a maternidade em virtude dos desejos da entidade patronal?

– As mulheres estão em maioria nas universidades – é um facto inegável. Contudo, coloque-se a questão: será que detêm o mesmo estatuto que os homens? Por um lado, há uma concentração feminina num conjunto restrito de actividades profissionais, a saber, serviços pessoais e domésticos, saúde e acção social e educação – segregação horizontal. Por outro, a nível da verticalidade do mercado de trabalho, verifica-se uma maior prevalência das mulheres nos níveis inferiores da hierarquia profissional, ou seja, à medida que aumentam os níveis de qualificação, a concentração feminina diminui – segregação vertical.

– A violência laboral transfigurada no assédio moral e sexual torna-se cada vez mais evidente e nefasta para as relações entre os indivíduos. O assédio moral corresponde a tentativas de descredibilizar, escarnecer, menosprezar manifestadas por um indivíduo em relação a um que lhe é hierarquicamente inferior. Esta forma de violência é, frequentemente, exercida sobre mulheres que retomam as suas funções laborais após um interregno para usufruir da licença de maternidade. O assédio sexual consiste, por seu turno, num comportamento de cariz sexual indesejado por quem é objecto da mesma. Traduz-se em suborno sexual (a vítima é aliciada com oportunidades de formação profissional, promoções, aumento de salário se aceder aos “pedidos” que lhe são colocados); comentários inoportunos, agressões físicas, posturas sexuais. De notar que, uma vez que as mulheres estão escassamente representadas nas posições de chefia, as vítimas de assédio sexual são maioritariamente do sexo feminino.

“Nem tudo o que parece, é”. A menção desta expressão não poderia ser mais oportuna.
O facto das mulheres participarem no mercado de trabalho não significa que detenham o mesmo estatuto e oportunidades que os homens. Pelo contrário, parece que deixaram a subserviência doméstica para serem marginalizadas no emprego!
A igualdade, essa, ainda está longe de ser uma realidade.

Anabela Santos
AnabelaMoreiraSantos@sapo.pt